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É AGORA, MULHER!

 

PORQUE VENCEREMOS AS RELAÇÕES PATRIARCAIS CAPITALISTAS

MENSAGEM PELO DIA MUNDIAL DE LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA SOBRE AS

 

MULHERES

 

 

Nas características biológicas não encontramos a explicação para a existência do

patriarcado, ou seja, do domínio masculino.

Estudos bem elaborados, no entanto, comprovam que ele constitui um elemento fundamental

da forma social que se apresenta nos processos históricos. Neles encontramos, todavia,

sociedades que conheceram relações bastante igualitárias entre os sexos.

Mas, na pré-modernidade nós mulheres fomos submetidas a uma verdadeira caça às bruxas.

Milhares de nós fomos cruelmente assassinadas.

O objetivo não foi apenas expropriar o nosso conhecimento medicinal, mas deslocar-nos de

tudo aquilo que representávamos.

Tratava-se de um projeto fundamentalmente diverso do nosso relacionamento com a

natureza.

Essa mudança histórica só foi alcançada através da economia das armas de fogo que o

macho branco ocidental utilizou para implantar o moderno sistema fetichista patriarcal produtor

de mercadorias, o capitalismo.

Nós mulheres somos resultado, portanto - aqui apresentado de forma bem resumida - de um

longo processo histórico patriarcal e cristão-ocidental da socialização pelo valor (valorização do

dinheiro) e da dissociação sexual (cisão entre as atividades dos homens/trabalho e mulheres/

cuidado, produção e reprodução da vida).

A constituição histórica dessa nova sociedade tem como fundamento uma formulação teórica

com sua prática correspondente advindas do iluminismo. Portanto, desse conjunto de elementos

depreende-se o pensar e o agir do sujeito moderno capitalista.

No entanto, nem os vencedores nem os derrotados nas eleições abordaram (e continuam

sem abordar) esse aspecto decisivo da constituição histórica da nossa sociedade. Isso se torna

mais grave na medida em que nós mulheres constituímos mais de 50% da população e do

eleitorado do Brasil.

Hoje já se sabe o porquê. O capitalismo, que dura aproximadamente 300 anos, está

enfrentando uma crise que expõe sua fronteira histórica. Sua ausência de perspectiva decorre

desta barreira histórica para ele intransponível. Com isso, o seu criador, o macho branco

ocidental, passou a viver sua crise final. Seu mundo está acabando. E ele não quer encarar de

frente essa realidade.

A subjetividade desse homem moderno se explicitou nas eleições no Brasil. Ele se nega a

abordar essa temática. Assim fica claro que a problemática mais candente da realidade brasileira

está proibida. Tudo foi feito para não focarmos essa questão decisiva. A disputa eleitoral

restringiu-se. Colocou em cena a busca pelos culpados. Regressamos à caça às bruxas em

pleno século XXI.

Sem dúvidas é mais fácil fazer rolar cabeças do que subverter relações e modificar formas

sociais. Nesse sentido, a encenação dos partidos, candidatos(as), internet, corrupção

computacional, mídia e horror e terror dos eleitores(as) acríticos foi quase perfeita.

A ideologia do liberalismo comemorou. Afinal, foi ele que subjetivou vertical e horizontalmente

a questão das causas dos problemas sociais. A ordem reinante patriarcal capitalista foi alçada a

dogma tendo como sua sustentação uma suposta lei natural fora de qualquer questionamento. A

crise do fundamento do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias é

escamoteada. O erro nunca pode estar no capitalismo. A prospecção de sua contradição em

processo não pode ser conhecida nem debatida. A substância do capital não pode ser revelada.

Muito menos agora que, pelas revoluções da microeletrônica e da robótica, se dessubstancializa

e põe em jogo o fundamento do capitalismo com todas as suas categorias fundantes.

Estamos diante de um ponto de vista irracional que provoca um alívio para a consciência que

não quer examinar criticamente as condições da própria existência, as causas da devastação

humana e ambiental em curso e a discussão sobre a saída para a crise que está colocando em

jogo a humanidade e o planeta.

 

Nenhum dos partidos de situação ou oposição considerou os problemas do sistema da

política como tal e o modo de produção e vida subjacentes. Mas, ficaram aprisionados somente

ao fato de se encontrarem os seus concorrentes no comando do estado e/ou fazerem “má

política” e/ou “política com p minúsculo”.

O liberalismo antigo se orientava de forma relativamente pragmática na busca dos culpados

na fase de expansão capitalista. Isso produziu uma grave e maligna paranoia que trouxe como

consequência o antissemitismo moderno que culminou com o massacre em massa dos judeus

pelos nazistas. Agora, as atuais visões do mundo advindas do neoliberalismo se prendem mais

fortemente à imagem demonizada do inimigo, refletindo a falta de horizonte do capitalismo. O que

poderá vir daqui?

Ao contrário dessa irracional teimosia reinante, a crítica radical social e emancipatória visa o

rompimento com as formas dominantes da reprodução e das relações sociais pela ruptura

categorial com o capitalismo.

Após o colapso do capitalismo de estado (socialismo) e a ruína provocada pela ideologia

neoliberal (fuga para frente com base no capital fictício), porém, a crítica social foi calada

completamente sobre a lógica e o fundamento do capitalismo. O sistema social e suas estruturas

viraram tabus. A forma social dominante das relações sociais não deve ser mais motivo de crítica

diante do agravamento, sem precedentes, dos problemas sociais no Brasil e no mundo. E, com

isso, a barbárie avança. Um terreno fértil para imagens apropriadas do inimigo.

E aí as teorias da conspiração ganham espaço. Não é de se admirar, portanto, que nos

últimos anos, em paralelo ao declínio do marxismo e aos impasses do neoliberalismo estejam

recrudescendo ideologias fascistas, feminicidas, LGBTfóbicas, racistas, xenofóbicas, genocidas,

ecocidas, antissemitas... que querem cometer suicídio junto com o capitalismo.

Isso faz com que as sociedades atuais tenham se tornado incapazes de refletir criticamente

sobre si próprias, criando simbologias de suas próprias estruturas em decomposição.

A nova direita legitimada pelas eleições vem para sustentar as relações patriarcais

capitalistas em perigo. Almeja declarar como terroristas os movimentos sociais. Pretende

interditar partidos de esquerda. Anuncia expurgo na administração pública. Põe pelo avesso o

conjunto de valores morais e políticos da Nova República. Prega abertamente a rejeição da

diversidade política e social do país. Quer implantar duradouramente a chamada escola sem

partido. A extensão desse discurso repressivo atinge outros setores da sociedade aos quais é

negado o direito à diferença como no caso dos homossexuais, negros e índios. Antes de tomar

posse já hostilizam setores da imprensa. E com relação a nós, mulheres, pretendem manter a

ferro e fogo as relações patriarcais capitalistas que, frente à crise da fronteira histórica do

capitalismo, levará ao infinito a violência sobre nós, mulheres.

Uma sociedade que não quer mais desvendar os seus próprios segredos está condenada a

instaurar uma regressão humana, social e ambiental.

Para desvendar esses segredos e alcançarmos a nossa libertação como mulheres temos que

levar em alta consideração que a emancipação da mulher não cabe no conflito ideológico entre

esquerda e direita.

Nem entre política e economia.

Também não se encerra entre autoritarismo e liberdade .

Assim também como não se encontra entre estado e mercado.

Nem também na escolha entre neoliberalismo e estatismo.

E muito menos está na opção entre fascismo e democracia, ambos administradores da

barbárie.

E não se restringe à disputa entre patrão e trabalhador, dominante e dominado, explorador e

explorado.

Também não está contemplada pelos atuais movimentos feministas que continuam sem levar

em conta os fundamentos das relações patriarcais capitalistas.

Essas relações nunca foram benéficas para as mulheres. E agora, quando o peso da crise cai

mais sobre nossos ombros, elas nos submetem a uma carga mais pesada de violência social,

racial, cultural, discriminatória e sexual que está exigindo a implementação de uma teoria e uma

prática inovadoras para serem eliminadas.

 

A emancipação das mulheres não tem como se realizar no moderno sistema fetichista

patriarcal produtor de mercadorias. O nosso acerto de contas é profundo e só virá através de um

novo movimento social que suplante o nosso passado como era e o nosso presente como está.

Meios para isso estão à nossa disposição. Claro que eles não serão cedidos, mas conquistados.

E suas conquistas serão acúmulos para irmos nos libertando, como é o caso da experiência do

Sítio Brotando a Emancipação. Vamos, mulheres, acabar com essa negação brutal de todo o

mundo sensível, ecológico, social...

Chegou o momento, de uma vez por todas, de nós mulheres podermos compreender em toda

a sua dimensão que a problemática global da sociedade atual em crise, na sua fronteira histórica,

encontra sua expressão na questão feminina.

A emancipação das mulheres como obra consciente e livre dos seres humanos entrou na

ordem do dia. Do começo até aqui, as relações patriarcais capitalistas sempre disseram: é assim!

A partir desse instante, vamos dizer: não será mais assim! O momento para essa façanha

histórica chegou. É agora, mulher!

Um abraço

 

DIA MUNDIAL DE LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA SOBRE A MULHER

ANIVERSÁRIO DA MARIA, BENJAMIN, ROSÂNGELA, D. VALDINA, SARA...

 

Música, arte, encontro, tesão, emoção, alegria, roda de conversa, homenagem à

companheira Célia Zanetti, exposição, depoimentos, poesia, feijoada, espaço das crianças, caipirinha...

 

25/11/2018 – A PARTIR DAS 10H

RUA PADRE MORORÓ, 952 - CENTRO

 

 

 

O ÓDIO ÀS MULHERES ESTÁ NOVAMENTE A AUMENTAR

Roswitha Scholz

         O feminismo ainda deverá ser salvo? Ou os seus jogos de linguagem pop-cultural

são um luxo que só serve a quem já não espera ganhar mais nada? konkret falou com a

teórica feminista

 

konkret: Onde está o feminismo em 2017?

 

Roswitha Scholz: O feminismo, no fundo, apenas em meados da década de 2000 voltou

a levantar a cabeça. Os anos noventa foram marcados por teorias queer e de género. As

abordagens materialistas eram malvistas. Mas, se no passado recente houve mais

abordagens de orientação materialista – palavra-chave: trabalho de care –, o feminismo

continua a não se atrever a questionar o que significa realmente a relação de género

numa dimensão teórica maior.

 

Porque é que a discussão da relação de género é tão crucial?

 

Trata-se da crítica das relações patriarcais capitalistas. Se se fala apenas de

capitalismo, isso é quando muito meia verdade. São destacados determinados aspectos,

são explicadas as relações económicas, mas é ignorado um elemento constitutivo: a

dissociação das actividades reprodutivas. E esconde-se a importância da dissociação

sexualmente especificada para a forma de sujeito.

Durante muito tempo, a relação de género foi tratada como contradição secundária.

Mas não se pode simplesmente deixar de fora as actividades de metade da humanidade.

Não basta esta situação ser integrada na crítica do capitalismo, pelo contrário, à

dissociação mediada pela categoria género tem de ser dada uma nova qualidade na

própria teoria, como princípio estrutural essencial do patriarcado produtor de mercadorias.

 

Em vez de uma contradição secundária há uma dupla contradição principal?

 

Como teórica feminista não quero enredar-me nas armadilhas da produção teórica

androcêntrica (que estabelece o masculino como norma e padrão), a qual procede

sempre de maneira universalista e na lógica da identidade. Tenho de ver que há outras

disparidades: o anti-semitismo, o racismo, o anticiganismo – todas estas formas são

essenciais para a constituição do sujeito burguês e do contexto social. Esta formação

social, na sua lógica processual, não pode ser simplesmente derivada de uma forma. A

elaboração teórica feminista tem de ultrapassar simultaneamente o olhar androcêntrico

que constatou relações causais frequentemente simples e generalizantes.

 

A categoria da crise desempenha um papel importante na sua teoria. Como é que as

situações sociais de crise se repercutem de modo sexualmente específico?

 

A crise tem repercussões diferentes nas mulheres e nos homens. Falo neste

contexto de um "asselvajamento do patriarcado". Isto não significa que a relação de

género se dissolva num sentido emancipatório. Nem tão-pouco significa que a estrutura

fundamental da sociedade sexualmente hierárquica se torne obsoleta. Haverá mais um

abrandamento dos papéis tradicionais de género em condições de empobrecimento. Tais

desenvolvimentos podem ser observados, por exemplo, nas favelas do chamado Terceiro

Mundo. As mulheres são aqui responsáveis ​​pela sobrevivência da família. Os homens

arrastam-se de emprego em emprego e de mulher em mulher e, na verdade, já não se

 

sentem responsáveis ​​pelas relações nem pelos próprios filhos. Estamos aqui mais

perante processos de degradação. Em situações de crise social aguda a maior carga

recai sobre os ombros das mulheres.

A ascensão de movimentos de direita vai de par com o desejo de um retorno às

imagens tradicionais de género.

Sim, a incerteza das normas tradicionais de género pode mudar. O ódio às

mulheres e às minorias está novamente a aumentar. Naturalmente que não pode haver

de facto nenhum retorno à imagem da mulher dos anos cinquenta.

Acho aqui interessante como as teorias de género e queer, que experimentaram

uma espécie de alto voo após o colapso do bloco de Leste, fazem triste figura neste

ponto. Elas efectuaram de certo modo uma desvalorização das relações sociais.

Acreditava-se que a liberalização da sociedade e a igualdade das mulheres estivessem

muito avançadas. As hierarquias de género e a estrutura da heterossexualidade

compulsiva foram objecto de uma crítica com pouca garra. Teorias marxistas ou

psicanalíticas foram em geral descartadas em favor de uma teoria do discurso limitada à

análise das atribuições linguísticas. Estas teorias pós-estruturalistas estiveram de certo

modo ligadas à exigência neoliberal de identidades flexíveis.

Hoje vemos que as teorias dos gender studies e queer studies, superficiais e com

fraco fundamento na teoria social, constituíram equívocos. Se eu não perceber que

existem estruturas sociais profundas, que de facto modificam historicamente a sua face,

mas permanecem em última análise como estruturas coercivas, então tenho tendência a

confundir já com a libertação as situações em que há ganhos emancipatórios reais. Em

muitos países, as conquistas das lutas emancipatórias estão a ser simplesmente

anuladas. Perante isto a teoria do discurso tem de cair das nuvens.

 

Na Polónia, na América Latina e nos Estados Unidos estiveram centenas de

milhares de mulheres na rua em manifestações nos últimos meses. Será o início de

um novo movimento de mulheres?

 

Estas manifestações são boas e importantes. E creio que também é necessário um

forte movimento antifascista. O que eu acho ainda assim problemático é o humanismo

retórico e o frequente democratismo aclamativo, que de facto se opõe à direita, mas

invoca de modo completamente afirmativo a chamada comunidade ocidental de valores.

 

Original Der Hass auf Frauen nimmt wieder zu em www.exit-online.org. Publicado

na revista konkret 3/2017. Tradução de Boaventura Antunes

 

http://obeco-online.org/

http://www.exit-online.org

 

 

 

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