A RUPTURA ONTOLÓGICA – Antes do início de uma outra história mundial – R. Kurz

Robert Kurz

O debate sobre a globalização parece ter chegado a uma situação de esgotamento. A causa disso não é, no entanto, o fato de que o processo social subjacente tenha se esgotado – ele está apenas no seu começo. São as idéias resultantes da interpretação que perderam o fôlego antes da hora. A corporação dos economistas e cientistas políticos já escreveu bibliotecas inteiras a respeito da explosão das fronteiras econômicas nacionais provocada pela globalização do capital e da conseqüente diluição do campo de atuação do Estado nacional e da regulação política. Mas as conseqüências desse reconhecimento ficaram de fora. Quanto mais nitidamente a análise demonstra que nação e política se tornaram obsoletos, tanto mais atávico se revela o discurso político e teórico aos conceitos de política e nação.

O dilema parece consistir no fato de que não há alternativas imanentes para esses conceitos, porque estas alternativas representam condições basilares da ontologia moderna. Isto é, elas representam suas próprias categorias. Se se entende que a ontologia é determinada não antropologicamente ou trans-historicamente, mas sim historicamente, então define-se um campo histórico determinado através dos conceitos ou categorias ontológicas da sociabilidade em termos marxistas: uma forma de sociedade ou um modo de vida e de produção. O sistema moderno de produção de mercadorias consiste em uma ontologia histórica desse tipo.

No interior desse campo existem freqüentemente alternativas e discussões que se movimentam sempre nas mesmas categorias históricas e ontológicas. A crítica e a superação dessas categorias parecem impensáveis. Assim, é possível inclusive criticar determinada política e substituí-la por outra; mas no interior da ontologia moderna é impossível criticar a política em si mesma e colocar em seu lugar um outro modo de regulação social. Para isso não se criou ainda conceito algum. Está disponível apenas o conteúdo determinado respectivo, mas não a forma categorial ou o modo de todos os conteúdos. O mesmo vale para as categorias de nação, Estado, direito, trabalho, dinheiro e mercado, e também de indivíduo, sujeito, relações de gênero (masculinidade e feminilidade social). Freqüentemente, a estas formas categoriais podem ser atribuídas especificidades conteudísticas diferentes; no entanto, a categoria própria ou o modo social correspondente não está jamais à disposição.

Os métodos e recursos disponíveis da moderna ciência social não dão mais conta do reconhecimento analítico de que o processo de globalização torna nação e política obsoletos. Não se trata mais – como até agora – da substituição de um conteúdo que se torna obsoleto por um novo conteúdo na mesma forma social, como a superação do poderio mundial exercido pelos Estados Unidos para um novo bloco de poder euro-asiático ou ainda a política econômica neoliberal pelo retorno ao paradigma keynesiano. Mais do que isso, a globalização questiona o modo político e a forma nacional em si mesmos.

Com isso, a análise corrente afirma mais do que sabe; involuntariamente ela tangencia, de forma geral, o limite da ontologia moderna mediante a visão da perda da capacidade de regulação do Estado nacional e da política. Quando cai uma categoria, caem todas as demais como peças de dominó. Pois a formação histórica do sistema moderno de produção de mercadorias pode apenas existir como um contexto categorial, no qual uma condição básica pressupõe uma outra e as diversas categorias determinam-se mutuamente.

Não se trata também de que a perda de competência da política deixe a economia desassistida ou permita que ela transcorra sem freio; ao contrário, a política se constitui no meio da regulação do sistema moderno de produção de mercadorias, que não pode funcionar economicamente sem esta regulação. Mesmo a globalização, que explode os limites nacionais e destrói a política como forma de regulação, é condicionada, por sua vez, pelo fato de que o “trabalho abstrato” (Marx), como forma da atividade humana produtiva e geradora de valor e da mais-valia, é substituído gradualmente pelo capital material. A conseqüente “desvalorização do valor” obriga o manegement à racionalização transnacional da produção. Na mesma medida em que o capital material, operacionalizado cientificamente, substitui o trabalho, o capital é “de-substancializado” e a “valorização do valor” (Marx) chega a limites históricos; a “desvalorização” de nação e política é tão-somente uma conseqüência deste processo. Mas, uma vez diluída a estrutura categorial das formas de produção, reprodução e regulação, tornam-se obsoletas também as formas da individualidade, do sujeito e de sua determinação androcêntrica de gênero.

O que parece ser em um primeiro momento uma crise particular da política e de seus limites nacionais é na verdade uma crise da ontologia moderna. Uma tal crise categorial exige como resposta uma crítica categorial. Mas para isso não há nenhuma representação ou conceito. Até o presente, toda crítica era imanente em suas categorias, relacionava-se apenas a conteúdos determinados, e não a formas e modos ontológicos do sistema moderno de produção de mercadorias. Daí a paralisia atual do pensamento teórico e da ação prática. A administração planetária da crise ontológica não pode pôr fim à diluição em barbárie da sociedade mundial definida nos termos capitalistas. Ao contrário, ela própria se torna parte desta barbárie.

Seria necessário uma ruptura ontológica, diante da qual se atemoriza todavia o discurso global, mesmo aquele da esquerda radical. Em seu lugar predominam idéias regressivas que gostariam de inverter o movimento da roda da história para evitar essa quase impensável ruptura ontológica. Enquanto os hardliners da administração da crise querem suprimir da maioria da humanidade sua condição própria de vida, a maior parte dos críticos da globalização esconde-se idealmente no passado analisando-a apenas superficialmente: retrocedem aos paradigmas de nação, política e regulação keynesiana, que se tornaram reacionários, ou então distanciam-se ainda mais nos ideais de uma sociedade agrária transfigurada. Uma parte integral desta tendência regressiva é o desatino religioso que grassa em todos os círculos culturais e ultrapassa todas as manifestações comparáveis nos fragmentos da história da modernização.

Para formular novamente um pensamento claro e questionar a ontologia como tal seria necessário entender essa ontologia como historicamente determinada. Pois apenas assim torna-se possível voltar o pensamento na direção de sua superação. As categorias do sistema moderno de produção de mercadorias dos séculos XVI a XVIII passaram a ser consideradas óbvias e apriorísticas. A crise ontológica atual do século XXI pode ser apenas controlada quando a história da formação destas categorias for não apenas iluminada em detalhe, mas também fundamentalmente reavaliada.

Essa tarefa é, contudo, bloqueada por um aparelhamento ideal, que é tão constitutivo para a modernidade como o contexto categorial de sua reprodução social. O fundamento deste aparelhamento ideal e ideológico em seu caráter ontologicamente afirmativo é constituído pela filosofia do esclarecimento. Todas as modernas teorias são igualmente oriundas desta raiz: o liberalismo, o marxismo, assim como as tendências burguesas e reacionárias contrárias ao esclarecimento e à modernidade. Por esta razão, todas elas são igualmente incapazes de formular a crítica categorial e realizar a ruptura ontológica necessária.

As oposições entre liberalismo, marxismo e conservadorismo, outrora mundialmente inquietantes, baseavam-se sempre em determinados conteúdos sociais, políticos, jurídicos ou ideológicos, mas nunca em formas categoriais e no modo ontológico de sociabilidade. Neste sentido, liberais, marxistas e conservadores ou radicais de direita podiam ser igualmente “patriotas”, “políticos”, “sujeitos”, “universalistas andrôcentricos”, e “homens de Estado”, amantes do “trabalho”, do “direito” ou das “finanças”. Diferenciavam-se respectivamente apenas através de nuances conteudísticas. Em razão de seu embasamento conjunto no pensamento do esclarecimento, as ideologias da história da modernização aparentemente opostas revelam-se na crise da ontologia moderna como um aparelhamento total ideológico no sentido de uma persistência conjunta e a qualquer preço nesta mesma ontologia.

A constatação que cintila ocasionalmente no discurso pós-moderno desde os anos 80, de que as ideologias de esquerda, direita e liberal teriam se tornado livremente elegíveis, evidencia o fundamento oculto que lhes é comum. Da mesma forma, o neoliberalismo apoderou-se hoje como ideologia de crise do espectro político total de maneira suprapartidária com variações mínimas. O pensamento pós-moderno teria se dado conta dessa livre elegibilidade apenas na forma fenomenológica e superficial, sem questionar criticamente a subjacente ontologia da modernidade. Em lugar disso, desejava driblar o enfrentamento do problema ontológico rejeitando-se todas as teorias relativas a ele como pretensões dogmáticas e totalitárias – como se o problema fosse apenas teórico e não representasse a realidade da forma social de reprodução. Desta maneira, as categorias basilares do sistema de produção de mercadorias não são absolutamente criticadas, mas apenas tiradas de foco sem que se possa, contudo, escapar delas na prática social. A pós-modernidade mostra-se assim como uma parte integral do aparelhamento ideológico total e, da mesma forma, uma derivação da filosofia do esclarecimento, apesar de afirmações em contrário.

O pensamento do esclarecimento, explicitamente, fundou, formulou, consolidou e legitimou ideologicamente as categorias da ontologia moderna que repontavam antes do século XVIII. Por isso, a ruptura ontológica necessária precisa ser acompanhada da crítica radical do esclarecimento e de todas as suas derivações da história da filosofia, da teoria e da ideologia. Ao rejeitar-se o fundamento, rejeita-se também todo o resto. Exatamente nisso consiste a ruptura ontológica.

As categorias de trabalho, valor, mercadoria, mercado, a organização do Estado e política, direito, universalismo androcêntrico, sujeito e individualidade abstrata não foram elaboradas apenas no esclarecimento como conceitos de reflexão de uma ontologia da modernidade criados em processos históricos cegos; o esclarecimento colocou-os em contexto lógico e histórico, no qual eles se tornariam incontestáveis.

As formações sociais agrárias anteriores possuíam também sua própria ontologia histórica; o antigo Egito e a Mesopotâmia, da mesma maneira que a Antiguidade greco-romana, o império chinês, a cultura islâmica e a Idade Média cristã. Mas todas essas ontologias eram de certa maneira auto-suficientes; elas eram definidas em si mesmas, não precisavam medir-se com nenhuma outra ontologia e não se submetiam á pressão de se justificar. Havia relacionamento com culturas externas da mesma época; estes “outros” foram definidos normalmente como “bárbaros”, “incrédulos” ou “pagãos”. Mas essas definições não se submetiam a nenhuma sistematização histórico-filosófica e representavam somente limitações acessórias.

O sistema moderno de produção de mercadorias, ao contrário, precisava fundar duplamente sua ontologia diferenciando-se de maneira reflexiva das sociedades agrárias pré-modernas; “reflexivo” não possui aqui uma acepção “crítica”, mas sim o sentido da legitimação de si mesma. A filosofia do esclarecimento destacou a obrigatoriedade da justificativa de um novo anseio de submissão e uso indevido dos indivíduos que ultrapassava todas as ontologias vigentes até então. As exigências monstruosas colocadas pelo capitalismo, que objetiva transformar o processo de vida imediatamente em uma função de sua lógica de valorização, não poderiam mais fundar-se em uma junção circunstancial de tradições.

De um lado, era necessário dar à ontologia especificamente nova a dignidade de uma relação natural objetiva. Isto é, era necessário transformar explicitamente uma ontologia histórica em uma ontologia trans-histórica e antropológica – simplesmente humana. Por outro lado, disso resultou a necessidade de se estabelecer uma relação lógica entre a ontologia moderna – então trans-historicamente fundamentada – e todas as formações históricas anteriores acrescidas das culturas contemporâneas não capitalistas (ainda predominantemente agrárias).

O resultado não poderia ter sido outro, senão imprimir em todo o passado a marca da inferioridade. Isso não representava apenas uma nova visão do mundo, mas sim uma revalorização de todos os valores. Nas sociedades agrárias, os homens compreendiam-se como filhos de seus pais não apenas no sentido ontogenético, mas também no sentido filogenético e histórico-social. Os mais velhos eram celebrados da mesma forma como os antepassados e os heróis míticos do passado. A época de ouro localizava-se no passado e não no futuro; o “ótimo” insuperável era a mítica “primeira vez” e não o “resultado final” de um processo de desempenho.

A filosofia da história desenvolvida no esclarecimento refletia a visão do mundo não de maneira crítica, mas colocando-a de ponta-cabeça. Contemplavam-se então os antepassados e os “homens primevos” no início da espécie como os filhos menores, histórico-filogenéticos, que atingiam a maioridade apenas na ontologia moderna. Todas as situações pregressas pareciam inicialmente “equívocos” da humanidade; transformavam-se então em estágios imperfeitos e imaturos da modernidade, que, por sua vez, passava a representar o ápice e o fim de um processo de amadurecimento – o “fim da história” no sentido ontológico. A história foi então definida pela primeira vez como “evolução” a partir de formas simples ou ontológicas para formas mais elevadas e melhores – como “progresso” do primitivo até o verdadeiro ser humano da modernidade produtora de mercadorias.

De um lado, as categorias ontológicas da modernidade especificamente históricas foram representadas como se tivessem estado presentes desde sempre. Mesmo o conceito de ontologia foi usado como sinônimo para fatos antropológicos trans-históricos ou não-históricos. Por isso não se podia mais questionar outras ontologias históricas no decorrer da histórica, bem como determinar suas especificidades. Ao invés disso, o esclarecimento projetou suas modernas categorias, por ele mesmo constituídas e legitimadas, em todo passado e em todo futuro. Os limites eram dados pelas perguntas: como eram o “trabalho”, a “nação”, a “política”, o “valor”, o “mercado”, o “dinheiro”, o “sujeito” etc. no antigo Egito, entre os celtas ou na Idade Média cristã; ou, ao contrário, que aspecto terão as mesmas categorias no futuro e como serão modificadas? Ao assumir essa caracterização da modernidade nos termos da ontologia, o marxismo pôde, em certo sentido, apenas adjetivar sua “alternativa socialista” como mera nuança conteudísticas ou regulação no interior da mesma forma social e histórica.

Por outro lado, as sociedades do passado surgiram nessa projeção como categorialmente imperfeitas. O que na verdade eram outras ontologias históricas foi tipificado como “imaturo” em termos categoriais; como ontologias modernas ainda não suficientemente “desenvolvidas” e necessariamente desfiguradas. Também todas as sociedades contemporâneas, ainda não – ou não completamente – compreendidas pela ontologia moderna, foram adaptadas ao mesmo esquema; elas eram vistas como “subdesenvolvidas”, “imaturas” e “inferiores”. A filosofia da história assim construída no esclarecimento serviu essencialmente como ideologia legitimadora da colonização interna e externa. Em nome dessa filosofia da história e seus esquemas, a submissão da sociedade ao sistema de “valorização do valor” – e também de seu respectivo “trabalho abstrato” com todas as exigências intoleráveis e disciplinamentos – pôde ser propagada como historicamente necessária e como parte de uma mudança para melhor.

O conceito de bárbaro, emprestado das altas culturas agrárias, surgiu como definição pejorativa da humanidade antiga ou contemporânea, não-capitalista; “barbárie” é entendida como sinônimo de uma cidadania incipiente no sentido da circulação capitalista (subjetividade de mercado e forma de direito) e, com isso, submissão incipiente à moderna ontologia. Não temos ainda nenhum outro conceito à disposição para caracterizar circunstâncias na sociedade que são destrutivas, violentas e desestabilizadoras do contexto social. Marx já usaria criticamente o conceito de “barbárie” ao relacioná-la tanto à história da formação do sistema de produção de mercadorias mesmo na “acumulação original” quanto à história da desagregação da modernidade nas crises capitalistas. A ruptura com a ontologia moderna, que hoje se apresenta, leva-nos, para além de Marx, a determinar como barbárie e a destruir a partir do fundamento o núcleo da máquina social capitalista, o “trabalho abstrato” e sua composição de disciplinamento interior e administração humana equivocadamente entendida como “civilização”.

Essa tarefa da ruptura ontológica é, todavia, complexa e de difícil percepção, uma vez que a filosofia da história que foi produzida pelo esclarecimento legitima-se de maneira paradoxal não apenas afirmativamente, mas também criticamente. O aparelhamento ideológico fundado pelo esclarecimento bloqueia a ruptura ontológica necessária exatamente por ter convivido com esse paradoxo. A crítica liberal-burguesa referiu-se sempre a circunstancias sociais que impediam a imposição da ontologia moderna. Tanto no sentido da colonização interna quanto no da externa, tratava-se dos resíduos deixados pelas formações agrárias. Entre estes resíduos estavam não apenas as antigas relações de dominação na forma de dependências pessoais, mas também determinadas condições de vida que significavam atritos para os anseios modernos do “trabalho abstrato”. Desta forma, foi extinta a maioria dos feriados religiosos para proporcionar um caminho livre para a transformação do tempo de vida em tempo funcional da valorização do capital.

O esclarecimento criticava as formas passadas de dependência pessoal apenas para legitimar novas formas de dependência coisificada do “trabalho abstrato”, do mercado e do Estado. Simultaneamente, essa crítica comportava traços repressivos porque estava ligada à propaganda da assiduidade abstrata, disciplina e submissão ás novas demandas do capitalismo, além de destruir, conjuntamente com a antiga forma de dominação, conquistas humanas universais das relações agrárias. Fundamentalmente, substituiu-se apenas um mal antigo por um novo, em parte ainda pior que aquele. Apesar disso, foi possível para a ideologia liberal do esclarecimento celebrar as relações modernas ainda nascentes como libertação do fardo feudal e representar a si mesma como quem leva a luz às obscuras crendices da Idade Média. A violência feudal era denunciada, enquanto o “trabalho abstrato” da modernidade era imposto aos homens com violência sem precedentes, como expressou Marx. O conceito de crítica, em geral, foi identificado pelo liberalismo do esclarecimento com a crítica da sociedade agrária, enquanto a modernidade capitalista, com suas atrocidades, fulgurava como “progresso”, ainda que na vida real ela representasse para a grande massa dos homens coisa muito distinta: uma regressão.

No decorrer do século XIX tardio e, mais ainda, no século XX, o conceito de crítica deslocou-se cada vez mais para as relações capitalistas internas, depois que a sociedade agrária praticamente afundou com suas estruturas de dependência pessoal. Não se tratava naturalmente da moderna ontologia e suas categorias, mas apenas da superação de velhos conteúdos e estruturas através de novas estruturas, baseadas ainda sobre os mesmos fundamentos ontológicos. O sistema de produção de mercadorias, isto é, o capitalismo, não é em sua essência uma situação estática, mas sim um processo dinâmico de transformação e desenvolvimento permanentes; mas é também um processo que ocorre sempre do mesmo modo e nas mesmas categorias formais. É uma luta constante entre o novo e o velho, mas sempre restrita a princípios novos e velhos dentro do próprio capitalismo. Para o conceito liberal da crítica, o princípio capitalista antigo entra em jogo no lugar do princípio ontológico antigo, ou seja, no lugar das relações sociais agrárias feudais que se tornam irreais. A ruptura ontológica entre a pré-modernidade e a modernidade foi substituída através da permanente ruptura estrutural no interior da modernidade e de sua própria ontologia. Este processo da dinâmica interna é etiquetado com o selo da “modernização”. Em nome de uma “modernização da modernidade”, a crítica liberal foi formulada desde então em suas próprias categorias.

O processo de “modernização” permanente nas categorias ontológicas da própria modernidade experimenta uma legitimação adicional através de uma crítica contrária, complementar e imanente, que se legitima de forma romântica ou reacionária. O “velho” pretensamente bom é conjurado contra o “novo” nefasto, sem que a ontologia moderna, todavia, seja submetida minimamente à crítica. Não se trata com isso sequer de uma defesa da ontologia pré-moderna vigente na sociedade agrária. Mais que tudo, o movimento reacionário ou conservador da antimodernidade é igualmente uma invenção da modernidade e uma derivação do próprio esclarecimento.

Trata-se de uma crítica burguesa ao modo de vida burguês, que desde o fim do século XVIII está carregada com imagens de uma sociedade agrária idealizada e com um sistema de valores pseudofeudais – semelhante ao liberalismo contrário, que é carregado com os ideais e o sistema de valores da circulação capitalista (“liberdade” do sujeito autônomo integrado ao mercado etc.) Mas os ideais pseudo-agrários foram formulados desde o início nas categorias da ontologia moderna, e não contra ela. Elas não tinham nada a ver com as ontologias pré-modernas reais; elas eram estranhas a estas. Da mesma forma que o romantismo auxiliou no nascimento da moderna individualidade abstrata, o conservadorismo e suas versões mais radicais do pensamento reacionário tornaram-se propagandistas do nacionalismo moderno e de sua legitimação etno-ideológica racista e anti-semita. No ethos do trabalho protestante e no darwinismo social existia sempre uma reciprocidade de conservadores e reacionários com o liberalismo que remonta às raízes comuns no pensamento do esclarecimento.

Quanto mais empalidecida a referência do pensamento conservador e reacionário à idealizada sociedade agrária, mais nítido precisava ser seu posicionamento no interior da moderna ontologia e de sua dinâmica. Neste contexto, a corrente romântica e reacionária seguiu o mesmo caminho do liberalismo, mas emitindo sinais contrários. De um lado, a crítica liberal, como protetora de um novo capitalismo, defendia uma permanente “modernização da modernidade” nas relações internas do capitalismo; de outro, a crítica reacionária e conservadora, protetora do velho capitalismo, respondia denunciando o sentimento de desmoralização e de desagregação produzido pelo novo capitalismo.

Uma vez que esta polaridade imanente marcava, todavia, o mesmo campo ontológico, sua oposição imanente formava ao mesmo tempo uma blindagem deste campo contra uma possível metacrítica. A partir das demandas intoleráveis aos seres humanos, do mal-estar e do potencial destrutivo do sistema moderno de produção criava-se uma tensão crescente que podia ser permanentemente conduzida ou desviada para a movimentação interna da oposição entre progresso e reação, entre liberalismo e conservadorismo. A destrutividade da modernidade deveria ser salva pelo último impulso de “modernização” (“progresso”), ou, ao contrário, domesticada pelo ativismo à situação presente da modernidade dirigido contra sua própria dinâmica (“conservadorismo” ou “reação”). E exatamente por isso bloqueava-se a crítica da ontologia social e histórica subjacente a esta posição.

A oposição interna à burguesia representada ora pelo liberalismo, ora pelo conservadorismo ou pela reação romântica, não se constituía, conteúdo, no único bloqueio a uma crítica da ontologia moderna. Antes disso, desenvolveu-se uma segunda onda de crítica no interior desta ontologia que se sobrepôs à primeira. A segunda onda foi sustentada, de um lado, pelo movimento de trabalhadores e, de outro, pelos movimentos de libertação na periferia do mercado mundial, dos quais fazem parte a revolução russa e os movimentos e regimes anticolonialistas. Em todos estes movimentos históricos foi elaborada oficialmente uma crítica fundamental do capitalismo que se articulava em muitos aspectos mediante o recurso à teoria marxista. No entanto, também esta segunda onda limitou-se fundamentalmente à moderna ontologia do sistema de produção de mercadorias e, com isso, às suas categorias; a retomada de Marx restringiu-se à observação dos componentes desta ontologia retidos pelo próprio Marx, enquanto ficaram emudecidos ou foram ignorados todos os demais momentos de sua teoria que iam além disso.

A razão para o fenômeno histórico desta segunda onda da crítica, que se sobrepôs à oposição no interior da burguesia, deve ser buscada no problema designado pela teoria da história e pelas ciências sociais como “não-simultaneidade histórica”. A ontologia moderna não se desenvolveu estrutural ou geograficamente de maneira uniforme, mas sim em surtos descontínuos.

Nos países do Ocidente que deram origem ao sistema de produção de mercadorias, apenas algumas categorias foram elaboradas, enquanto outras permaneciam “subdesenvolvidas”. Trata-se da formação do sujeito moderno, da individualidade abstrata e das conseqüentes formas de direito e política. O esclarecimento e o liberalismo não puderam elaborar estas categorias como abstratas e gerais, igualmente legítimas para todos os membros da sociedade. O universalismo, formulado primeiramente de maneira teórica, rompeu-se, em seguida, face aos estratos sociais; a todo custo, iluministas e liberais queriam localizar “o homem” da ontologia moderna apenas na elite masculina. A massa de assalariados e assalariadas era submetida inclusive à disciplina do “trabalho abstrato”, mas ficava à margem do território ontológico do ponto de vista jurídico e político. Para que a ontologia moderna pudesse ser concluída objetivamente e não pessoalmente, ela precisava ser generalizada.

Apenas com a integração política e jurídica era possível tornar perfeita a submissão categorial do homem.

A partir dessa constelação, o movimento dos trabalhadores no Ocidente assumiu a função específica da “Modernização da modernidade”, que consistia na luta pelo reconhecimento de assalariados e assalariadas como sujeitos integrais dentro do direito, da política e na participação no Estado (direito de voto, liberdade de coalizão e de assembléia). Com isso bloqueou-se a crítica categorial também por esse flanco. Em vez da ruptura ontológica, o movimento dos trabalhadores deu preferência à finalização da ontologia moderna. Ele assumiu em parte o papel do liberalismo na medida em que universalizou determinadas categorias modernas. O liberalismo mostrara-se incapaz disso e revelou, em certo sentido, um aspecto conservador. Conseqüentemente, o movimento dos trabalhadores acusou o liberalismo de traição a seus próprios ideais e assumiu ele próprio os ideologemas essenciais do esclarecimento, incluindo-se aqueles próprios à ética protestante do trabalho.

A moderna ontologia do sistema de produção de mercadorias inclui, no entanto, determinada relação de gênero. Todos os momentos da vida e da reprodução, sejam materiais, psicossociais ou simbólico-culturais, assumem uma conotação simbólica e são na prática delegados às mulheres mediante todos os desenvolvimentos históricos e internos a esta ontologia. O reconhecimento das assalariadas – e, em geral, das mulheres – na sociedade burguesa como sujeitos no sistema jurídico e na vida política – negado pela maioria dos filósofos do esclarecimento – possuía validade restrita mesmo após a segunda onda da crítica imanente: de um lado, elas se movimentavam nas esferas oficiais da sociedade, mas, ao mesmo tempo, mantêm uma perna “do lado de fora” porque precisam representar os momentos de cisão e não integrados de maneira sistêmica. Neste sentido, a ontologia moderna não se constitui em uma totalidade fechada, mas sim em uma totalidade rompida e contraditória em si mesma, mediada pela “relação de cisão” manifestada nas relações de gênero (Roswitha Scholz). Para corresponder à relação estrutural de cisão no contexto da ontologia moderna, o reconhecimento burguês das mulheres deve ser mantido de forma imperfeita e incompleta. O indivíduo íntegro, abstratamente definido, é, na realidade, dotado de masculinidade, da mesma forma que o universalismo abstrato é androcêntrico exatamente por isso.

Em grandes dimensões repetiu-se a dialética afirmativa do reconhecimento burguês aos movimentos da periferia pela independência nacional e participação autônoma no mercado mundial. Neste caso, a crítica do capitalismo se baseou essencialmente na estrutura da dependência colonialista e pós-colonialista em relação aos países ocidentais mais desenvolvidos, mas não nas categorias sociais básicas. Aqui também se tratava de um reconhecimento perfeitamente assentado na ontologia moderna, mas não em sua crítica e em sua superação. Desta forma, tanto a revolução russa como a chinesa e os posteriores movimentos de libertação no hemisfério sul assumiram uma função no âmbito da “modernização da modernidade”, que consistia na formação recuperadora de economias e Estados nacionais na periferia. Conseqüentemente, também este movimento histórico precisava estar baseado nas idealizadas categorias da modernidade e em sua legitimação através do esclarecimento, mantendo-se preso, portanto, ao universalismo androcêntrico.

A não-simultaneidade no seio da moderna ontologia produziu um declive do desenvolvimento em termos geográficos ou no próprio interior da sociedade, que reclamava um posicionamento tanto da crítica aparentemente radical como da crítica liberal e do esclarecimento. O movimento dos trabalhadores dos países ocidentais, as revoluções do Leste e os movimentos de libertação do hemisfério sul representam apenas variantes distintas de uma “modernização recuperadora” no contexto dessa desigualdade. Tratava-se de ascender ao sistema de produção de mercadorias, e não de sair dessa ontologia histórica. Essa opção podia ser positivamente ocupada pelas noções de “progresso” e “desenvolvimento”, enquanto o sistema mundial como um todo dava espaço para uma subseqüente “modernização da modernidade”.

Este espaço para o desenvolvimento não existe mais. Na terceira revolução industrial, a ontologia moderna depara-se com limites históricos. Tornam-se obsoletas mesmo as categorias nas quais transcorreu o progresso total de modernização, como mostram com clareza o “trabalho”, a nação e a política. Com isso expirou também a não-simultaneidade no interior do sistema de produção de mercadorias. Mas isso ocorreu não porque todas as sociedades deste mundo teriam alcançado o mais alto nível de desenvolvimento moderno ou porque tenham sido nivelados os declives ou, ainda, porque tenha sido alcançada uma positiva simultaneidade planetária em níveis equivalentes. A não-simultaneidade expirou em razão do fato de que o sistema de produção de mercadorias estaria afundando na crise ontológica. Tanto faz o nível de desenvolvimento alcançado pelas sociedades em particular: todas elas são apanhadas em mesma medida pela crise ontológica ou categorial.

As diferentes sociedades encontram-se ainda em situações totalmente diversas nos planos material, social, político etc. Muitos países estão apenas nos primórdios do “desenvolvimento” moderno; outros estão empacados a meio caminho. Mas o declive não mobiliza nenhuma dinâmica adicional de “modernização recuperadora”. Ele gera, ao contrário, uma dinâmica de barbárie. A crise ontológica produz uma simultaneidade negativa, uma “decadência em termos mundiais” das categorias modernas, que transcorre sucessivamente sob condições inalteradas de desigualdade. Não existe volta para a antiga sociedade agrária, mas, uma vez ocorrido, o desenvolvimento nas formas ontológicas modernas passa a ser desmontado. Indústrias inteiras são paralisadas; continentes inteiros são deixados à própria sorte; e, mesmo nos países centrais do Ocidente, a crise crescente passa a ser apenas administrada sem perspectiva de mudanças.

Por toda parte e em todos os níveis da esgotada ontologia capitalista, a crise atinge não apenas as categorias capitalistas, mas também a relação de cisão determinada pelas questões de gênero. As relações de gênero ficam também “fora de controle”; torna-se frágil a identidade masculina da subjetividade completa e unidimensional de trabalho abstrato, direito, política, etc. Ela se decompõe em uma situação de “selvageria” (Roswitha Scholz), que se torna componente integral da tendência à barbárie e libera novos potenciais de violência gratuita contra mulheres. A barbárie não pode mais ser estancada através de um mero e já fracassado reconhecimento imanente das mulheres: isso só seria possível mediante a ruptura ontológica com a totalidade do campo histórico da modernidade capitalista, na qual é imanente a relação de cisão determinada pelas questões de gênero.

Em todo lugar, a mesma crise ontológica paralisa a crítica ainda mais do que antes. A crítica socialista do capitalismo, imanente em suas categorias e afirmativa ontologicamente, possui paradigmas oriundos da não-simultaneidade; ela está tão profundamente enraizada que nada mais pode ser pensado. A reiteração fantasmagórica de suas concepções cai no vazio porque não é alcançado o nível exigido da crítica categorial e da abrangente ruptura ontológica. De certa maneira, tornaram-se conjuntamente reacionários o liberalismo, o conservadorismo e o marxismo tradicional. As ideologias da modernização decompõem-se e misturam-se umas às outras. Esclarecimento e contra-esclarecimento tornam-se idênticos. Hoje existem comunistas anti-semitas e liberais racistas, iluministas conservadores, socialistas radicais de mercado e utopistas sexistas e machistas. Os movimentos sociais recentes mostram-se até agora impotentes diante dos problemas da crítica ontológica e da simultaneidade negativa. Apesar de serem distintos os pressupostos herdados do passado, estes problemas podem ser formulados e solucionados apenas por uma sociedade planetária.

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Traduzido do alemão por Marcos Branda Lacerda.

Original DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org/. Comunicação ao Seminário sobre Roberto Schwarz em S. Paulo, Agosto de 2004. Texto em português incluído colectânea das comunicações aí havidas: UM CRÍTICO NA PERIFERIA DO CAPITALISMO, S. Paulo, 2007.

http://obeco.planetaclix.pt/

http://www.exit-online.org/

 

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