TEMPO, TRABALHO E DOMINAÇÃO SOCIAL – PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA – M. POSTONE

 

            Este livro busca repensar fundamentalmente as categorias centrais da crítica da economia política de Marx como base para uma rigorosa reconceitualização crítica da natureza da modernidade capitalista contemporânea. Ele responde ao que pode ser considerado o fracasso do marxismo tradicional (a crítica do mercado e da propriedade privada dos meios de produção do ponto de vista do trabalho e da produção) em fornecer uma teoria crítica do capitalismo adequada – um fracasso que se tornou cada vez mais evidente no decorrer do século XX.  Ao mesmo tempo, o livro também defende que uma crítica do capitalismo permanece essencial para compreender o mundo contemporâneo. A atual crise financeira reforçou essas duas proposições. Ela desnudou o caráter contraditório e instável  do capitalismo contemporâneo. Além do mais, as respostas à crise, essencialmente carentes de definição formal, ainda que muito difundidas, revelaram a dramática ausência de um imaginário pós-capitalismo sólido e, consequentemente, de uma sólida crítica do capital. Resultado disso é a persistência da hegemonia os discursos e das políticas neoliberais.

            Este livro defende que a crítica a economia política do Marx maduro, tal como elaborada nos Grundrisse e no Capital, fornece as bases para uma teoria crítica da modernidade diferente e de relevância contemporânea. No coração dessa reinterpretação está uma reinversão fundamental do sentido e da importância da marxiana categoria-chave do trabalho. Enquanto nas interpretações marxista tradicionais o trabalho constitui o ponto de vista da crítica de Marx à modernidade capitalista e a base de uma possível ordem social pós-capitalista, na interpretação desenvolvida aqui, o trabalho constitui o objeto fundamental da crítica de Marx. Isso não se refere apenas ao tratamento que Marx dedica aos tipos de práticas laborais que cada vez mais caracterizam o capitalismo, mas também à sua análise da foprma do trabalho no capitalismo como base de uma estrutura historicamente específica de imperativos e amarras que caracterizam tal sociedade. Essa reconsideração da análise do trabalho feita por Marx como a base para estrutura de alienação acarreta uma crítica fundamental do marxismo tradicional na medida em que reformula os alicerces de uma teoria crítica do capital.

             Essa reinterpretação necessariamente visa esclarecer as categorias fundamentais da crítica de Marx num nível lógico  abstrato. Tal abordagem tem sido reforçada por uma consideração retrospectiva das diversas configurações históricas do capital. Tornou-se evidente, considerada retrospectivamente a partir do início do século XXI, que a configuração social/política/econômica/cultural da hegemonia da capital tem, variado historicamente – do mercantilismo ao capitalismo neoliberal global contemporâneo, passando pelo capitalismo liberal do século XIX eo capitalismo organizado e centrado no Estado do século XX. Cada configuração tem provocado uma série de críticas contundentes – da exploração e do crescimento desigual e injustos, por exemplo, ou de formas tecnocráticas e burocráticas de dominação. Cada uma dessas críticas é, no entanto, incompleta; como se vê agora, o capitalismo não pode ser identificado completamente com nenhuma de suas configurações históricas. Tenho procurado desenvolver uma teoria do capital num nível suficientemente abstrato, de modo que ela não se restrinja necessariamente a nenhuma dessas configurações do capitalismo.

              Defendo que a categoria do capital é essencialmente temporal. Ela delineia um processo historicamente dinâmico que distingue, de modo singular, o capitalismo como uma forma de vida social. Esse processo dinâmico é uma característica nuclear do mundo moderno. Ele acarreta tanto uma transformação em curso da vida social e cultural quanto uma contínua reconstituição da base da ordem existente. Essa dinâmica dialética não pode ser apreendida nem nos tempos do Estado nem nos da sociedade civil. Ela constitui uma forma historicamente específica de heteronomia que restringe severamente a verdadeira autodeterminação – uma forma de lógica histórica que é exclusiva do capitalismo (mesmo que tenha sido projetada sobre toda a vida social humana como Histórica). Essa dinâmica – uma forma de heteronomia que também suscita na possibilidade de uma nova e emancipada forma de vida social – precisa ser compreendida se uma teoria crítica do capitalismo há de se adequar a seu objeto.

               A reinterpretação apresentada nesta obra busca fornecer os fundamentos para tal teoria crítica do capitalismo, que poderia servir então como ponto de partida para uma análise das transições monumentais no capitalismo, bem como para as subjetividades historicamente cambiantes expressas em movimentos sociais historicamente determinados. Esse texto, no entanto, permanece focado em elaborar uma compreensão da essência do capitalismo como uma formação social singularmente dinâmica, repensando os significados das categorias marxianas  básicas de mercadoria e capital de formas bastante diferentes das interpretações marxistas tradicionais. Com essa reinterpretação, espero contribuir à constituição de uma rigorosa teoria do mundo contemporâneo.

              A edição brasileira deste livro não teria sido possível sem uma grande quantidade de apoio, comprometimento e trabalho árduo. Sou grato ao College of the University of Chicago, pelo apoio à tradução, bem como aos tradutores, Paulo César Castanheira e Amilton Reis, aos editores, Ivana Jinkings, João Alexandre Peschanski, Bibiana Lerme e Isabella Mercatti, a Mario Duayer, Paulo Henrique Furtado de Araújo e Paula Nabuco, que colaboraram com esta edição, e aos funcionários do Boitempo.

Moishe Postone

Chicago, junho de 2014

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