PRA COMEÇAR UMA OUTRA HISTÓRIA!

A humanidade e o planeta Terra nunca tiveram tantas condições para curtir uma vida plena de sentido, mas se defrontam hoje com o culto da morte.

A ameaça de extinção da humanidade e da natureza anunciada pela Crítica Radical, em decorrência da fronteira histórica do capitalismo, com seu limite interno (econômico) e externo (ecológico) já não está mais oculta. Apareceu e o que parecia oferecer infinitas possibilidades de consumo, conforto e oportunidades gerou o caos. Com sua barbárie pós-moderna parou a terra e nos faz lembrar Raul. Fizemos um enorme esforço para que a humanidade se antecipasse a esse colapso espetacular genocida e ecocida. Mas, agora, ficou ainda mais claro que há uma clara correlação entre coronavírus, desequilíbrio ecológico e o colapso do capitalismo global, como nos lembra outro Raoul.

A natureza irracional do capitalismo veio à tona. E se mostra como uma “louca seita suicida” (Robert Kurz), diante do esgotamento de sua lógica, de seu fundamento. O capitalismo quer se salvar, mesmo que morram milhões de pessoas. Alguns capitalistas e socialistas começaram a dimensionar que o sistema não tem futuro. Mas concordam em despejar de helicóptero trilhões para serem queimados na tentativa de sustentar um sistema destrutivo e irracional. A finalidade seria tentar estancar a crise e conter uma possível revolta dos seus servos ainda voluntários. Trabalhador(a) que for contemplado(a) pela doação do dinheiro, pegue o dinheiro, se for cobrado, não pague e se emancipe dele e do seu sistema!

Sem dúvida os donos do poder pressentiram o perigo. A problemática que se acumulou no decorrer dos anos frente às crises econômicas poderia vir a se somar à sucata financeira do inflacionado sistema financeiro global e aí seria o colapso total. Esse perigo, que já vinha se desenhando antes do coronavírus, tendo com ele assumido uma proporção inaudita, levaria para os céus a montanha da dívida global. Vale ressaltar que a elucidação dessa e de outras relevantes questões contou desde muito tempo com a colaboração destacada dos(as) críticos(as) radicais do valor-dissociação.

Nas crises cíclicas do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias os trabalhadores sempre foram chamados e colaboram para superar os impasses que o sistema apresentava. As crises cíclicas eram crises de expansão do capitalismo. E o capitalismo pôde, assim, contorná-las. Exemplo disso foi a ditadura civil-militar no Brasil, expressão política do capitalismo em expansão, que se sustentou na ditadura do tempo abstrato que, hoje, entrou em colapso. Agora, estamos diante de uma crise completamente diferente. É a crise da fronteira histórica que se expressa na derrocada iminente do sistema. Diante disso, nada de suicídio ao lado do capitalismo recorrendo às administrações da barbárie como fizeram os governos de Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma Temer e, agora, Bolsonaro. No caso do governo Bolsonaro, por ser expressão política do capitalismo em seu limite histórico, reforça a ameaça extremada da extinção da humanidade e da natureza.

Em razão disso, o apelo ao sacrifício, particularmente aos ex-trabalhadores e aos poucos trabalhadores que restam, procura evitar, de todo o jeito, que tomem consciência que podem se emancipar definitivamente do capital. Os discursos que afirmam que tudo vale a pena, inclusive a eliminação da vida de milhões, assumem abertamente o assassinato, o genocídio e o ecocídio da humanidade e do planeta. Não podemos e não devemos aceitar o sacrifício de nenhuma vida. Essa cantilena do sacrifício sempre acompanhou o capitalismo nos seus momentos de crise. Mas, a crise atual é muito maior, mais forte, mais abrangente e muito mais profunda que a de 2008. E apresenta, de maneira cristalina, o seu esgotamento histórico. O coronavírus tornou-se a revelação do fracasso do capitalismo, num desvio de Raoul Vaneigem. Em razão disso, virou de fato um gatilho que pode derrubar o sistema, num desvio de Tomasz Konicz.

O sistema, portanto, não tem perspectiva, não tem horizontes. Se os trabalhadores(as) quiserem continuar colaborando com a sua continuidade estarão contribuindo também com a barbárie, o genocídio e o ecocídio.

Em 25 de março lembramos a libertação dos escravos no Ceará. Nesses tempos de coronavírus, continuamos insistindo na nossa proclamação de que os novos escravos já têm que estar livres, conscientes e associados para se emanciparem.

.A natureza da crise expõe a eliminação do trabalho pela 3ª e 4ª revoluções tecnocientíficas. Ao retirar a substância do capital, desvaloriza o valor que juntamente com a dissociação sexual constitui o fundamento da produção burguesa. Com isso, além do trabalho, entram em crise todas as demais categorias fundantes do capitalismo. Quem não se fundamenta na crítica categorial, portanto, fica impossibilitado(a) de perceber a natureza da crise e de apresentar uma proposta à altura dos desafios do século XXI. Tornam-se administradores(as) da barbárie em todos os recantos da terra.

 Afinal, não estamos diante de catástrofes como a queda de um asteróide, erupção de um vulcão ou tsunami. Trata-se do resultado de uma ação provocada pelo próprio ser humano que dá origem a essa pandemia global com suas graves conseqüências para a humanidade e o planeta.

Em alguma medida isso já ocorreu no passado. Antes, não foi suficiente para que se produzissem mudanças radicais no nosso viver, sentir e pensar. Isso que aí está nos levará à mudança drástica de atitude? O equilíbrio do capitalismo revelou-se frágil como um castelo de areia. Estamos diante do fracasso absoluto do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias, chamado civilização avançada. Diante da devastação humana e ambiental em curso, será que não chegou mais do que a hora de ultrapassarmos Bolsonaros, Trumps, patriarcado, feminicídio, racismo, devastação, genocídio, ecocídio e capitalismo, entre tantas outras mazelas?

Nós, do Crítica Radical, superamos obstáculos quase intransponíveis. Mas continuamos mantendo acesa a chama da esperança. Jamais a substituiremos pelo medo e pelo desespero. Estamos fundamentados num projeto cujo conteúdo é inovador. Temos propostas, novos horizontes, novas perspectivas. Estamos programando várias iniciativas. Uma delas será um encontro/debate on-line com nossos convidados(as) ao Seminário e Encontro Transnacionais.

Sem dúvida que a quarentena pode se transformar num momento de reflexão e ação para a maior façanha histórica do ser humano que é a conquista de uma sociedade humanamente diversa e desfetichizada, socialmente igual e criativa, ecologicamente exuberante e bela, prazerosa no ócio produtivo e completamente livre.

Amigos e amigas, outros alarmantes e prováveis acontecimentos podem arrastar o mundo para incontornáveis situações. Com essa dimensão, é fundamental pensarmos e agirmos conseqüentemente, neste momento em que a possibilidade da emancipação humana e ambiental se apresenta. Como metassujeitos estamos diante da oportunidade histórica para superarmos a segunda natureza plasmada pela forma moderna. Preparemo-nos para construirmos já, através de um novo movimento social transnacional emancipatório, uma nova história, uma nova relação social, uma nova sociedade fundamentada numa vida plena de sentido.

Os povos de todo o mundo, em particular nós, brasileiros, temos diante de nós a oportunidade histórica de acertarmos contas com toda a história de sofrimento, a história das relações fetichistas, até aqui imperante e inaugurarmos a conquista da emancipação humana e ambiental.

Jorge Paiva e Rosa Fonseca, integrantes do Crítica Radical

PROGRAMA CRÍTICA RADICAL AO VIVO – 30.03.2020
A ABORDAGEM SOBRE “O COLAPSO DE TUDO” E LANÇAMENTO DO TEXTO PRA COMEÇAR UMA OUTRA HISTÓRIA.
COM ROSA FONSÊCA E JORGE PAIVA

DA LIBERTAÇÃO À EMANCIPAÇÃO! DERROTAR O VÍRUS E ULTRAPASSAR O CAPITALISMO!

PROGRAMA CRÍTICA RADICAL – 1ª PARTE

Retornamos, hoje, dia 25 de março, data da libertação dos escravos no Ceará, a nossa programação de rádio. E continuamos insistindo na nossa proclamação de que os novos escravos já têm que estar livres, conscientes e associados para a emancipação.

A ameaça de extinção da humanidade e do planeta anunciada pela Crítica Radical já não está mais oculta. Parou a terra e nos faz lembrar Raul. Fizemos um enorme esforço para que a humanidade se antecipasse a esse colapso espetacular. Mas, agora, ficou ainda mais claro que há uma clara correlação entre coronavírus e o colapso do capitalismo global como nos lembra outro Raoul.

Não estamos diante de catástrofes como a queda de um asteróide, erupção de um vulcão ou tsunami, mas de um evento provocado pelo próprio ser humano com todas as suas conseqüências.

Em alguma medida isso já ocorreu no passado e não foi suficiente para que se produzissem mudanças radicais no nosso viver, sentir e pensar. Isso que aí está nos levará à mudança drástica de atitude? O equilíbrio do capitalismo revelou-se frágil como um castelo de areia. Estamos diante do fracasso absoluto do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias, chamado civilização avançada. Diante da devastação humana e ambiental em curso, chegou não chegou mais do que a hora de ultrapassarmos Bolsonaros, patriarcado, racismo, devastação, genocídio, ecocídio e capitalismo entre tantas mazelas?

 Continuamos mantendo acesa a chama da esperança. Temos propostas para novos horizontes, novas perspectivas. Uma delas será uma reunião/debate pela internet com alguns dos nossos convidados(as) ao Seminário e Encontro Transnacionais . Essa nossa primeira experiência de transmissão deu certo. Poderemos, com sua colaboração, aperfeiçoá-la, ampliá-la, embelezá-la, aprofundá-la.

O coronavírus tornou-se a revelação do fracasso do capitalismo. Sem dúvida a quarentena pode se transformar num momento de reflexão e ação para a maior façanha histórica do ser humano que é a conquista de uma sociedade humanamente diversa e desfetichizada, socialmente igual e criativa, ecologicamente exuberante e bela, prazerosa no ócio produtivo e completamente livre.

O momento para a emancipação humana e ambiental se apresentou. Preparemo-nos para construirmos já, através de um novo movimento social emancipatório, uma nova história, uma nova relação social, uma nova sociedade fundamentada numa vida plena de sentido.

Um abraço

Crítica Radical

BASTA DE CAPITALISMO DE FIM DE MUNDO! PELO FIM DO MUNDO DO CAPITALISMO! CORONAVÍRUS – ARTIGO DE RAOUL VANEIGEM

       “Lá fora, o caixão, cá dentro, a televisão, a janela aberta sobre um mundo fechado! »

Contestar o perigo do coronavírus é certamente absurdo. Por outro lado, não é igualmente absurdo que uma perturbação no curso normal das doenças seja objecto de tal exploração emocional e desperte a incompetência arrogante que uma vez lançou a nuvem de Chernobyl para fora da França? Claro que sabemos com que facilidade o espectro do apocalipse sai da sua caixa para agarrar o primeiro cataclismo que surge, para mexer com o imaginário da inundação universal e para conduzir o arado da culpa para o solo estéril de Sodoma e Gomorra.

A maldição divina foi um coadjuvante útil ao poder. Pelo menos até ao terramoto de Lisboa de 1755, quando o Marquês de Pombal, amigo de Voltaire, aproveitou o terramoto para massacrar os jesuítas, reconstruir a cidade de acordo com os seus projectos e liquidar alegremente os seus rivais políticos com processos “proto-estalinistas”. Não vamos insultar Pombal, por muito odioso que seja, comparando o seu golpe de Estado ditatorial com as medidas miseráveis que o totalitarismo democrático aplica a nível mundial à epidemia do coronavírus.

Como é cínico culpar a propagação do flagelo pela deplorável inadequação dos recursos médicos mobilizados! Durante décadas, o bem público tem sido minado e o sector hospitalar tem sido vítima de uma política que favorece os interesses financeiros em detrimento da saúde dos cidadãos. Há sempre mais dinheiro para os bancos e cada vez menos camas e cuidadores para os hospitais. Que artimanhas esconderão por mais tempo que essa gestão catastrófica do catastrofismo é inerente ao capitalismo financeiro que é dominante globalmente, e hoje globalmente combatido em nome da vida, do planeta e das espécies a serem salvas.

Sem cair nesse ressurgimento do castigo divino que é a idéia de a Natureza se livrar do Homem como um verme indesejável e nocivo, não é inútil lembrar que durante milênios, a exploração da natureza humana e da natureza terrena impôs o dogma da anti-física, da anti-natureza. O livro de Eric Postaire, Les épidémie du XXIe siècle, publicado em 1997, confirma os efeitos desastrosos da desnaturação persistente, que tenho vindo a denunciar há décadas. Evocando o drama das “vacas loucas” (previsto por Rudolf Steiner já em 1920), o autor nos lembra que, além de estarmos desarmados diante de certas doenças, estamos a tomar consciência de que o próprio progresso científico pode causá-las. Em seu apelo por uma abordagem responsável das epidemias e do seu tratamento, ele incrimina o que no prefácio Claude Gudin chama de “filosofia da gaveta do dinheiro”. Ele faz a pergunta: “Se subordinamos a saúde da população às leis do lucro, ao ponto de transformar animais herbívoros em carnívoros, não corremos o risco de provocar catástrofes fatais para a Natureza e para a Humanidade?” Como sabemos, os governos já responderam com um SIM unânime. O que importa, uma vez que o NÃO dos interesses financeiros continua a triunfar cinicamente?

Foi preciso o coronavírus para demonstrar aos mais tacanhos que a desnaturação por razões de rentabilidade tem consequências desastrosas para a saúde universal – a saúde que é gerida sem desarmar uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas escondem o desaparecimento de hospitais públicos? Há uma clara correlação entre o coronavírus e o colapso do capitalismo global. Ao mesmo tempo, não é menos óbvio que o que está encobrindo e dominando a epidemia de coronavírus é uma praga emocional, um medo histérico, um pânico que tanto esconde a falta de tratamento como perpetua o mal ao assustar o paciente. Durante as grandes epidemias de peste do passado, as pessoas faziam penitência e proclamavam a sua culpa ao flagelarem-se a si próprias. Os gestores da desumanização global não têm interesse em convencer as pessoas de que não há saída para o destino miserável que lhes está a ser infligido? Que tudo o que lhes resta é a flagelação da servidão voluntária? A formidável máquina dos media apenas repete a velha mentira do impenetrável e inescapável decreto celestial onde o dinheiro louco suplantou os deuses sanguinários e caprichosos do passado.

O desencadeamento da barbárie policial contra manifestantes pacíficos demonstrou amplamente que a lei militar é a única coisa que funciona eficazmente. Agora confina mulheres, homens e crianças à quarentena. Lá fora, o caixão, cá dentro, a televisão, a janela aberta sobre um mundo fechado! É um condicionamento capaz de agravar o mal-estar existencial, jogando com as emoções dilaceradas pela angústia, exacerbando a cegueira da raiva impotente.

Mas mesmo a mentira dá lugar ao colapso geral. A cretinização estatal e populista atingiu os seus limites. Não pode negar que uma experiência está em curso. A desobediência civil está a espalhar-se e a sonhar com sociedades radicalmente novas, porque radicalmente humanas. A solidariedade liberta da sua pele de carneiro individualista indivíduos de que já não têm medo de pensar por si próprios.

O coronavírus tornou-se a revelação do fracasso do Estado. Isto é pelo menos algo em que as vítimas do confinamento forçado devem pensar. Quando as minhas modestas propostas aos grevistas foram publicadas, alguns amigos disseram-me como era difícil recorrer à recusa colectiva, que eu sugeri, de pagar impostos e taxas. Agora, no entanto, a falência comprovada do Estado corrupto é prova de uma decadência económica e social que está tornando as pequenas e médias empresas, o comércio local, os rendimentos modestos, os agricultores familiares e até mesmo as chamadas profissões liberais absolutamente insolventes. O colapso do Leviatã conseguiu convencer mais rapidamente do que as nossas resoluções a derrubá-lo.

O coronavírus fez ainda melhor. A cessação das perturbações produtivistas reduziu a poluição global, poupa a milhões de pessoas uma morte programada, a natureza respira, os golfinhos voltam a brincar na Sardenha, os canais de Veneza purificados do turismo de massas voltam a encontrar água limpa, o mercado bolsista entra em colapso. A Espanha resolve nacionalizar hospitais privados, como se estivesse a redescobrir a previdência social, como se o Estado se lembrasse do Estado social que destruiu.

Nada é tomado como garantido, tudo começa. A utopia ainda caminha a quatro patas. Vamos abandonar à sua inanidade celestial os biliões de notas e ideias ocas que circulam por cima das nossas cabeças. O importante é “tratar dos nossos assuntos”, deixando a bolha dos negócios desfazer-se e implodir. Livremo-nos da falta de audácia e de autoconfiança!

O nosso presente não é o confinamento que a sobrevivência nos impõe, é a abertura a todas as possibilidades. É sob o efeito do pânico que o estado oligárquico é forçado a adoptar medidas que ainda ontem decretou impossíveis. É ao apelo da vida e da terra a restaurar que queremos responder. A quarentena é um momento de reflexão. O confinamento não suprime a presença da rua, reinventa-a. Deixem-me pensar, cum grano salis, que a insurreição da vida quotidiana tem virtudes terapêuticas que nunca imaginámos.

17 de março de 2020

Raoul Vaneigem

(Raoul Vaneigem, filósofo belga, 86 anos, um dos principais articuladores da  Internacional Situacionista durante a década de 1960. Autor do livro “A Arte de Viver Para as Novas Gerações“)

Publicado nos sites 

https://lundi.am/Coronavirus-Raoul-Vaneigem?fbclid=IwAR1CgRot3z2HGE3v6-3KaNT_949nZpMY8GMSPt_jCSy6UMuGVio92PxWSkY
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597297-coronavirus-por-raoul-vaneigem

 E no facebook –

BASTA DO MUNDO DO MACHO! ABAIXO BOLSONARO, PATRIARCADO E CAPITALISMO!

VEJA AQUI A PROGRAMAÇÃO

Este mundo foi implantado pelo homem branco ocidental. O seu resultado é a catástrofe patriarcal capitalista que aí está. Essa sociedade, portanto, nada tem de natural, é uma construção histórica e, como tal, pode ser superada.

Nós, mulheres, não temos responsabilidades na implantação desse patriarcado. Ao contrário, a nossa história está marcada por essa dominação. Ao compreendermos isso poderemos contribuir destacadamente para darmos um basta neste reino de barbárie, genocídio, ecocídio, racismo, machismo, LGBTfobia, dominação, exploração, guerras, feminicídio, nacionalismo, populismo, narcisismo, fundamentalismo, obscurantismo, intolerância, coronavírus, desemprego, tecnologia do confinamento humano, inutilidade do ser humano, disseminação de agrotóxicos e devastação ambiental com seu desmatamento e aquecimento global, política de segurança genocida e racista e neofascismo bolsonarista em curso que alimenta estes e outros retrocessos.

E, então, a história da humanidade e da natureza será uma outra história. Seus caminhos ainda não traçados encontraram finalmente, através da nossa revolta consciente e de uma proposta de práxis inovadora a possibilidade de voarmos na busca da sociedade da emancipação humana e ambiental.

De nada adiantou a caça às bruxas para limpar o terreno com o objetivo da implantação desta sociedade. A nova dominação das mulheres produziu resistências. Muitas ainda desconhecidas. Mas, a gestação por uma outra sociedade adubou a imaginação feminina.

Também nada resolveu a expansão dessa sociedade com a extensão da dominação fazendo dos africanos escravizados e exterminando, de forma generalizada, os povos indígenas. Um clamor contido de revolta se espalhou pela terra.

Foram precisos séculos para se tentar enraizar o novo patriarcado. E isso só aconteceu porque, de um lado, se acreditou na versão patriarcal de que nós, mulheres, não tínhamos história. Do outro lado, por causa dessa lacuna, ficamos desprovidas de uma crítica que alcançasse as raízes da dominação. Em razão disso, os chamados “desenvolvimento” e “progresso” foram acompanhados de uma lista de sofrimentos que atingiu níveis alarmantes sobre os povos colonizados e escravizados e, em particular, sobre as mulheres.

Hoje, a barbárie se instalou com a fronteira histórica do patriarcado produtor de mercadorias. A catástrofe produzida pelo sistema no seu limite interno e externo alcançou todo o planeta e se transformou numa ameaça à existência da humanidade e da natureza.

Não dá para reproduzir aqui a lista de horrores dos nossos sofrimentos anteriores e atuais. São numerosos, cruéis, dolorosos e quase indescritíveis. O que é mais importante e decisivo, aqui e agora, é compreendermos suas causas, seus fundamentos para que possamos dimensioná-los e superá-los.

Anteriormente, não conhecíamos a nossa própria história. Quase nada sabíamos sobre nossa posição subordinada nas sociedades pré-modernas. E, muito menos, nas sociedades modernas, sociedades produtoras de mercadorias que vieram em seguida. Hoje, estamos começando a compreender a nossa própria história e, ao captarmos seus fundamentos, reuniremos melhores condições para a adoção de uma prática capaz de conquistarmos a nossa emancipação. E, ainda mais agora, que podemos contar com uma formulação teórica inovadora que está à nossa disposição e à altura dos nossos desafios.

Nós e o patriarcado produtor de mercadorias somos resultado de uma longa história patriarcal judaico-cristã ocidental da socialização pelo valor (valorização do dinheiro pelo trabalho) e da dissociação sexual (cisão entre os papéis dos homens e das mulheres). Para que o patriarcado com sua racionalidade pudessem impor-se na esteira do legado antigo, era necessário deslocar a mulher e tudo o que ela representava. Assim, arrancaram-nos a ciência medicinal empírica e implantaram um projeto completamente diverso do nosso relacionamento com a natureza.

Para esse resultado contribuiu decisivamente o homem branco ocidental. Sua origem vem da economia das armas de fogo nos primórdios da modernidade e do poder destrutivo destas. Através disso se deu origem ao sistema patriarcal produtor de mercadorias, o capitalismo. Através da troca no mercado, as mercadorias produzidas se tornaram produtos sociais. Essas mercadorias contêm valores que representam uma determinada energia social despendida para produzi-las, ou seja, o trabalho. E esta representação exprime-se, por sua vez, num meio particular, o dinheiro, que expressa a forma geral do valor para todo o universo das mercadorias.

A relação social mediada por essa forma põe de pernas para o ar o relacionamento entre as pessoas e os produtos materiais. Os membros da sociedade como pessoas, aparecem como associais, como simples produtores privados e indivíduos sem relações. O relacionamento social apresenta-se, pelo contrário, como relação entre objetos (muitos deles animados, como se vê com a inteligência artificial) postos em relação entre si tendo por base a quantidade abstrata de valor que representam, cuja medida é o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-lo. As pessoas são objetivadas e as coisas personificadas.

Com isso, estamos diante do fetichismo da mercadoria que inverte a realidade ao fazer com que o concreto (a mercadoria) seja o mero condutor do abstrato (o valor). E, assim, origina-se uma alienação recíproca sobre e entre nós, membros dessa sociedade, que não utilizamos os nossos recursos de acordo com decisões comuns conscientes, mas, numa servidão voluntária, submetemo-nos a uma relação oculta entre coisas, nossos próprios produtos, comandados pela forma dinheiro.

Nessas coisas produzidas que constituem valores econômicos, não se levam em conta as suas qualidades sensíveis na medida em que são representantes materiais de trabalho indiscriminado e que apenas como tal se encarnam na forma do dinheiro. Então, estamos diante de um absurdo social em que o processo vivo de nossa relação com a natureza e as relações sociais que se estabelecem aparece como propriedade de coisas mortas. A atividade viva de homens e mulheres é absorvida pelos seus próprios produtos, promovidos a quase sujeitos da sociedade, enquanto os seus criadores(as) são degradados a meros acessórios.

Não existiria esse sistema patriarcal produtor de mercadorias se não existisse um espaço separado, dissociado da produção, para cuidar da casa, da criação e educação dos filhos, da assistência e cuidados humanos, do afeto, erotismo, sexualidade, amor, tesão, paixão, um reino de sentimentos e emoções dissociados da esfera do trabalho e, ao mesmo tempo como garantidor da produção e reprodução da mercadoria força de trabalho para a produção. Esse espaço foi imposto a nós mulheres como espaço subalterno expressando a dominação patriarcal moderna e pós-moderna.

O conceito abstrato de trabalho não aborda essas atividades femininas de reprodução. O feminismo, que em grande medida se fundamenta no marxismo do movimento operário com sua visão retrógrada de positividade do trabalho, ficou desarmado diante dessa questão fundamental.

O conjunto de relacionamento social no capitalismo, portanto, não se determina somente pelo auto-movimento fetichista do dinheiro e pelo caráter de fim em si do trabalho. Pelo contrário, verifica-se uma dissociação, uma cisão, especificada sexualmente mediada dialeticamente com o valor. Não estamos aqui diante de nenhuma relação de derivação lógica imanente entre o valor e a dissociação. A dissociação é o valor e o valor é a dissociação (Roswitha Scholz). Cada um está contido(a) no outro(a) sem ser idêntico(a) a ele(a). Ambos constituem momentos centrais e essenciais da mesma relação social.

Diante disso, como enfrentar e superar o feminicídio, a remuneração salarial rebaixada frente aos homens, a discriminação para ocupar postos de direção, o aprisionamento pelo “trabalho” doméstico, confinamento pela tecnologia, estresse nas alturas, para ser bela e gostosa, administrar a casa e ter dinheiro para sustentar a casa e o macho, cujo mundo acabou, sem enfrentar e superar essa relação social? E, ainda mais agora, que essa relação social fundamentada na socialização pelo valor e na dissociação sexual vive a sua crise final? O aumento da produtividade pelo uso cada vez mais decisivo das máquinas chegou a um ponto em que está sendo dispensado mais trabalho do que ainda poderia ser adicionalmente mobilizado pela expansão dos mercados e da produção (Robert Kurz). O aumento de mais-valor (mais-valia) relativo por trabalhador individual não adianta mais nada porque o número de trabalhadores no conjunto utilizáveis diminui consideravelmente. Esse ponto está aí escancarado, inclusive para quem insiste em não querer ver.

Estamos diante, portanto, da relação entre a produtividade, as condições da valorização e o esgotamento da sua identidade masculina. Pela primeira vez na história da humanidade, a problemática global da crise encontra sua expressão na questão feminina. Superar o patriarcado, hoje, é superar a forma fetichista da mercadoria. Pois aqui reside o fundamento da dissociação patriarcal que apresenta um estado social em que a sociedade não tem consciência de si mesma, não planeja nem organiza diretamente, na prática, sua própria forma de socialização, mas tem que representá-la simbolicamente num objeto externo, o dinheiro. Esse objeto assume, então, um significado sobrenatural que não é idêntico à sua forma externa, mas que aparece através desta. Em virtude de seu significado como um totemismo objetivado e secularizado da modernidade, ele adquire, apesar de sua banalidade material, poder sobre todos os membros dessa sociedade.

Nós, mulheres, mantivemos uma impensável e impossível gestação para a vinda de uma sociedade diferente desta. Sonhamos durante muito tempo com uma outra história e, agora, devemos adquirir plena consciência para, através de uma prática correspondente, conquistarmos a emancipação.

Pois, chegou o momento de nós, mulheres, fazermos um chamamento amplo, geral e irrestrito para que nós, seres humanos, possamos suplantar esse estado de coisas, lutando não apenas contra os efeitos, mas para superarmos as suas causas.

Que, na dialética entre imanência e transcendência não fiquemos aprisionadas pelos abusos incessantes dessa sociedade machista, fetichista, patriarcal produtora de mercadorias. Essa sociedade, como vimos , está no seu limite e isso possibilita uma oportunidade histórica para irmos muito além dela, eliminando a ameaça que representa de extinção da humanidade e do planeta. Que possamos compreender definitivamente que o capitalismo, apesar de todas as suas barbaridades, engendrou condições que, através de um novo movimento social transnacional emancipatório, podem ser utilizadas para a conquista da emancipação humana e ambiental.

Mulheres, sejamos realistas, pensemos o impensável, façamos o impossível!

Rosa Fonsêca, socióloga, Mestra em Educação, integrante do Crítica Radical e da União das Mulheres Cearenses

Publicado no Jornal O Povo online no dia 03.03.2020

https://mais.opovo.com.br/jornal/opiniao/2020/03/03/rosa-fonseca–basta-do-mundo-do-macho.html?fbclid=IwAR0rDcHCiRJXzJV9ShHyH5luUz6HrfCB04aqMHSHy1O5Zn-20ILOrXPk66s#.Xl8QPMa44Zc.facebook

LANÇAMENTOS

MANIFESTO, ENCONTRO E SEMINÁRIO TRANSNACIONAIS

E MOVIMENTO EMANCIPATÓRIO

PRÉ-LANÇAMENTO DO LIVRO MULHERES DOS ESCOMBROS – SCHEILLA NUNES

10/MAR/2020 – TERÇA18h30m – ADUFC

MANIFESTAÇÃO – 08 DE MARÇO – 13H

DRAGÃO DO MAR / PRAIA DE IRACEMA

NO DIA INTERNACIONL DA MULHER, NOSSA HOMENAGEM À COMPANHEIRA CÉLIA ZANETTI NOS DOIS ANOS DA SUA PARTIDA – VEJA O VÍDEO