PRA COMEÇAR UMA OUTRA HISTÓRIA!

     As rebeliões tomam conta do mundo. Milhões de pessoas querem mudar de vida.

    Substituirão a vida falsa pela vida autêntica?

    Reivindicações específicas detonaram as explosões que logo se alastraram.

    Constata-se uma insatisfação generalizada com a política. Descrença na dobradinha Estado versus Mercado. Cólera diante do fracasso das políticas econômicas neoliberais e neokeynesianas. Temor com as guerras e as ameaças de guerras não só dos Estados Unidos com a China. Repulsa a Trump e Cia. Revolta com bilhões padecendo nas mãos de um grupelho de bilionários. Raiva com a crescente desigualdade social. Aversão à corrupção e decomposição generalizadas. Incertezas com medidas judiciais. Indignação com a simbiose entre democracia e dinheiro. Perplexidade com a substituição, sem garantia de emprego, da força de trabalho pela tecnologia. Pavor com o avanço do genocídio, ecocídio e barbárie.

    Reivindicações são atendidas, mas as rebeliões não se aquietam. Isso evidencia que os manifestantes sabem o que repudiam. Mas não alcançam as mudanças profundas que a oportunidade histórica possibilita. O impasse com a política mostra isso. Aceitam trocar uma política por outra. Mas não sua superação. Desconhecem a natureza da crise atual do capitalismo. Têm visão só para o concreto e não para o abstrato que o determina. Com isso, se vêem impedidos de acertarem contas com o capitalismo e suas expressões políticas. Continuam aprisionados na imanência. Assim, não olham para a transcendência que pode emancipá-los. Lutam por inclusão e colhem exclusão. Querem viver felizes e se deparam com mais sofrimento. Não sabem como evitar a crescente inutilidade do ser humano. Querem uma natureza preservada e se chocam com a Terra se tornando inabitável. Agarram-se com a tecnologia que os confinam. Não percebem que sua utilização para valorizar o valor criou um impasse, pois elimina o trabalho que é a substância do capital. E aí a lógica do dinheiro produzir mais dinheiro se esgota, desvaloriza-se, dessubstancializa-se. A tecnologia, portanto, tem uma dupla face: ela escraviza, mas pode, se usada com uma crítica aguçada, contribuir para se libertar.

    Bolsonaro aceitou ser candidato para administrar a crise. Usou e abusou de uma corrupção nunca vista: a corrupção computacional. Não reconhece que milhões de pessoas já não são utilizáveis em termos capitalistas. O que acoberta a justificativa para a execução de milhões do sanatório social. É totalmente contra refletir sobre o dinheiro sem valor que aduba a regressão em curso, o recuo da civilização. É cúmplice do sacrifício humano ao trabalho e tempo abstratos. Quer impedir que se discuta um projeto à altura da natureza da crise. Pavoneia-se de ser um burocrata por defender o fetiche do capital. Bolsonaro vem do que é mais retrógado no país. Identifica-se com isso. Ele conta com o apoio de uma nata de obscurantistas que provocam insultando, destroem direitos, solapam a liberdade, queimam a Amazônia, tiranizam a educação, a cultura e a arte. Deixa claro que pretende inocentar policiais/milicianos que cegarem, aleijarem ou assassinarem quem protesta contra ele. Contrariado, chantageia com o AI5. Seu partido é um eco da ditadura civil- militar que se alicerça num programa ainda mais arcaico. Um partido que fará de tudo para tentar impedir uma saída emancipatória da crise. Um partido que está disposto e quer a todo custo o Brasil como coadjuvante do suicídio do capitalismo.

    Diante disso, partidos políticos, quer sejam de direita, centro ou esquerda se movimentam como cordas de caranguejos. Mexem e remexem, mas não saem do lugar porque estão amarrados ao capital. Não querem mudar, mesmo diante da evidência que o capitalismo mudou o seu modo de produção. Frente a isso, a crítica, teórica e prática, que praticam teria que também mudar. Ao não mudarem, colaboram com a administração da barbárie. É o que indica os preparativos para as eleições de 2020 e 2022 com suas falsas polarizações.

    Essa pseud0-crítica assume, assim, a máscara de caráter do faz mas não sabe, demonstrada pela crítica radical. Afinal, o capitalismo produz não apenas mercadorias para as pessoas, mas pessoas para as mercadorias.

    E, hoje, a mercadoria com todas as demais categorias fundantes do capitalismo, entrou na sua crise definitiva. Já não podemos pensar e agir como se o capitalismo ainda pudesse, assim como fênix, renascer das cinzas. No espelho de terror estamos diante da sua barreira histórica, frente à frente com seu limite interno e externo.

    A história do capitalismo mostra, enfim, que sua vitória é também a sua derrota. Uma reflexão que foi extraída da origem do capitalismo. No entanto, permaneceu oculta. A importância do núcleo fundamental que capta os fundamentos do sistema, o valor-dissociação, demorou a ser dimensionada. Hoje o desenvolvimento parcial e a destruição capitalistas entram na sua fase autodestrutiva. A humanidade já convive com a ameaça de extinção humana e ambiental. Aceitará seu desfecho?

    Mas, hoje, ficou insustentável a manutenção da censura sobre a contradição em processo do capital e a prospecção sobre a crise da fronteira histórica do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias. O conjunto do movimento social, particularmente o movimento feminista, ecológico, anti-racista, LGBT+A, sindical, de intelectuais, professores e cientistas, cultural e artístico tem agora, diante de si, a oportunidade histórica de se superar, através da crítica categorial ao sistema.

    Diante de nós a oportunidade histórica de ultrapassarmos o capitalismo. Para isso temos que construir um novo movimento social com base na crítica radical do valor-dissociação. Um movimento transnacional emancipatório para substituirmos o capitalismo. Um movimento para superarmos a nossa constituição fetichista, a nossa subjetividade narcisista, a nossa formatação inconsciente, a nossa forma-fetiche, enfim, a nossa forma-sujeito.

    Pra começar uma outra história precisamos estar conscientes, livres e associados(as). Para isso é indispensável que realizemos, através de uma comunicação instigativa, muitas reuniões, debates, pesquisas, estudos, discussões com práticas inovadoras e encontros municipais, estaduais, nacionais e internacionais para que suas análises e proposições que serão acolhidas no evento nos possibilitem melhores condições para estarmos à altura das respostas para os desafios do século XXI. Daqui advém o propósito de construirmos o Seminário e Encontro Transnacionais da Emancipação Humana e Ambiental. Essa façanha histórica vai se realizar no Ceará, em Fortaleza/Sítio Brotando a Emancipação nos dias 30 de abril a 03 de maio de 2020. Até lá vamos traçar novos caminhos para se vislumbrar já a emancipação que virá.

SEMINÁRIO E ENCONTRO TRANSNACIONAIS DA EMANCIPAÇÃO HUMANA E AMBIENTAL

30 DE ABRIL A 03 DE MAIO DE 2020

ABERTURA EM FORTALEZA E, EM SEGUIDA, SÍTIO BROTANDO A EMANCIPAÇÃO (CASCAVEL)

(LANÇADO NA FESTA DE ANIVERSÁRIO DOS 77 ANOS DE MARIA LUIZA – 30.11.19)

ABERTURA DOS ESTUDOS PREPARATÓRIOS PARA O SEMINÁRIO E ENCONTRO TRANSNACIONAIS EMANCIPATÓRIOS

PARTICIPE DOS PREPARATIVOS PARA O SEMINÁRIO E ENCONTRO TRANSNACIONAIS EMANCIPATÓRIOS
ABERTURA DOS ESTUDOS

TEMA: FETICHISMO, NARCISISMO E SUBJETIVIDADE
PRESENÇA: PROF. ROBSON OLIVEIRA (UFC)
31.10 – 5ª FEIRA – 16 HORAS

LOCAL: SALA 14 – BLOCO LETRAS NOTURNO – CH1 – UFC

ENCONTRO COM PROFESSORES E ESTUDANTES DO SERVIÇO SOCIAL DA FATENE NO SÍTIO BROTANDO A EMANCIPAÇÃO

ATRAVÉS DE UMA AULA DE CAMPO PROFESSORES E ESTUDANTES DO SERVIÇO SOCIAL DA FATENE REALIZARAM UM ENCONTRO MARAVILHOSO COM O CRÍTICA RADICAL NO SÍTIO BROTANDO EMANCIPAÇÃO

Nos diálogos com o Crítica Radical estudantes e professores levantaram algumas questões importantes, entre as quais

  • Qual a natureza da crise que o capitalismo ora expressa?
  • Como justificar a ruptura com a concepção ontológica do trabalho?
  • Qual a compreensão que explica que o trabalho, como categoria que impulsiona a dinâmica do capitalismo, deve ser abolido?
  • Por que a luta de classe perde espaço no papel de desmoronamento do capitalismo?
  • Como a comunidade do entorno do Sítio está envolvida na proposta Brotando Emancipação?
  • quais os caminhos para a conquista da emancipação humana e ambiental?

ANTEPROJETO SEMINÁRIO E ENCONTRO TRANSNACIONAIS

Caro Amigo, Cara Amiga,

A apresentação deste anteprojeto já extrapolou o Crítica. Tudo indica que teremos um processo enriquecedor para elaboração, debate e decisão da proposta do Crítica para o Projeto de Encontro Transnacional. Uma reunião está sendo convocada com esse objetivo. Nesta extrapolação e ampliação não tem como não incluir você. Portanto, estamos encaminhando a você o conteúdo do anteprojeto. Assim o debate será ainda mais promissor para o aprofundamento e embelezamento coletivo dos(as) críticos(as) radicais do valor-dissociação para o Projeto.

Um abraço

Crítica Radical

ANTEPROJETO

SEMINÁRIO E ENCONTRO TRANSNACIONAIS

TEORIA CRÍTICA RADICAL DO VALOR-DISSOCIAÇÃO, SUPLANTAÇÃO DO CAPITALISMO COM SUA CRISE ATUAL DO COLAPSO DA SUA MODERNIZAÇÃO, DE SEU LIMITE HISTÓRICO, DE SUA ADMINISTRAÇÃO DA BARBÁRIE COMO ESPETÁCULO DO FIM DO MUNDO DO SUJEITO FETICHISTA E LANÇAMENTO E ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO TRANSNACIONAL DA EMANCIPAÇÃO HUMANA E AMBIENTAL

09, 10, 11 e 12 de abril de 2020 – FORTALEZA E SÍTIO BROTANDO A EMANCIPAÇÃO

I – INTRODUÇÃO

Com esse anteprojeto do Seminário e Encontro Transnacionais queremos provocar de forma instigante e criativa a sua vontade consciente. Além de você, toda a humanidade e dos seres humanos em geral para iniciarmos a construção de um modo superior de sociabilidade. Uma nova relação social que vá muito além das formas fetichistas da mercadoria, da política, do trabalho e do dinheiro. Aqui a pré-modernidade, a modernidade, a pós-modernidade e a ultra-modernidade revelam-se como pré-históricas. O anteprojeto pretende, portanto, sensibilizá-lo(a) para o processo emancipatório que se inicia. Busca convocá-lo(a) para pegarmos a chave, abrirmos a porta e entrarmos no quarto proibido onde estão guardados os segredos de toda a humanidade. Através deste anteprojeto desenha-se a construção do vôo mais alto da inteligência humana, o período da mais bela luta de todos os tempos.

II – IDENTIFICAÇÃO DO EVENTO

Título do Evento: SEMINÁRIO E ENCONTRO TRANSNACIONAIS – TEORIA CRÍTICA RADICAL DO VALOR-DISSOCIAÇÃO, SUPLANTAÇÃO DO CAPITALISMO COM SUA CRISE ATUAL DO COLAPSO DA SUA MODERNIZAÇÃO, DE SEU LIMITE HISTÓRICO, DE SUA ADMINISTRAÇÃO DA BARBÁRIE COMO ESPETÁCULO DO FIM DO MUNDO DO SUJEITO FETICHISTA E LANÇAMENTO E ORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO TRANSNACIONAL DA EMANCIPAÇÃO HUMANA E AMBIENTAL Proposição e Realização: Críticos(as) Radicais do valor-dissociação de Fortaleza, Ceará, Brasil e Mundo Apoio: Universidades, escolas, movimentos sociais e entidades em geral Duração: 25 horas Período: 09, 10, 11 e 12 de abril de 2020 Público Alvo: pesquisadores(as), professores(as), estudantes, trabalhadores(as), integrantes dos diversos movimentos sociais, artistas, intelectuais, negros, índios, LGBTs, mulheres, ecologistas e indivíduos em geral do Brasil e de vários países. Conferencistas Convidados(as): Roswitha Scholz (Pedagoga, ensaísta alemã e editora da revista EXIT e outros(as) integrantes da revista), Anselm Jappe (Doutor em Filosofia e Ciências Sociais, professor, ensaísta alemão, editor da Revista Jaggernaut e outros), Teresa Ricci (Doutora em Literatura e ensaísta italiana), Gérard Briche (Doutor em Filosofia, professor e ensaísta francês), Felicidad Espinoza Soto (Mestra em Desenvolvimento Rural, Ciências Ambientais e Bióloga em Espanha e integrante da Revista Mania), Boaventura Antunes e demais ensaístas e colaboradores da revista EXIT no site obeco, Paulo Arantes (Doutor em Filosofia, professor aposentado da USP), Marildo Menegat (Doutor em Filosofia, professor na UFRJ), Carlos Toledo (Doutor e Professor em Geografia Econômica / USP e integrante do LABUR), Dieter Heidemann (Doutor e professor de Geografia da USP/aposentado e integrante do LABUR), Gabriel Zacarias (doutor em Estudos Culturais e professor na UNICAMP). Deveremos contar também com professores da UECE, UFC e outras universidades e Jorge Paiva (integrante do Instituto Crítica Radical de Fortaleza). Locais do Evento – Fortaleza e Sítio Brotando a Emancipação (Cascavel – Ce) Endereço: Em Fortaleza, a confirmar. Observação: A Temática Geral e Específica, a Programação e Orçamento estão em elaboração para o projeto final.

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III — O EVENTO Fortaleza, no decorrer dos anos, tem sido palco e origem de vários eventos de dimensões e repercussões inéditas para a cidade e país. Entre elas cabe destacar: Seminário Internacional Crítica Radical, Superação do Capitalismo e a Emancipação Humana (CEFET- CEARÁ /2.000), Seminário Internacional Crítica Radical, Crise e Emancipação — Para superação da história das relações fetichistas (Bienal Internacional do Livro — Centro de Convenções/2004), Simpósio Internacional – De que amanhã se trata? Ciência, Cultura e Desafios Contemporâneos no Olhar da Critica Emancipatória (SPBC — UECE/2005), o Seminário FETICHISMO E EMANCIPAÇÃO – 150 anos dos Grundrisse (Karl Marx) e A Origem das Espécies (Charles Darwin) (UFC/2008) e o Ciclo de Debates Brasil nas Ruas — Reforma ou Ruptura? (UFC/2013), lançamento de livros com debates entre os quais, mais recentemente Luis Marques (Capitalismo e Colapso Ambiental), Marcelo Godoy (A Casa da Vovó), Moishe Postone (Tempo, Trabalho e Dominação Social), Marildo Menegat (Crítica do Capitalismo em Tempos de Catástrofe) Gabriel Zacarias (No espelho do terror), além de vários encontros e debates, entre outras atividades.
A realização desses eventos sempre contou com um número significativo de participantes ensejando acalorados debates. Todas essas iniciativas fazem parte de uma proposta que vinha sendo desenvolvida pelo Instituto Filosofia da Práxis em parceria com universidades e outras instituições que, entrelaçando o mundo acadêmico e aqueles(as) que refletem e compõem os movimentos sociais, se propôs a discutir a realidade do mundo presente, a partir de um ponto de vista capaz de dar conta da crise real do que se tornou comum chamar o mundo globalizado.
No centro dos debates travados nesses eventos, a atualidade da crítica da economia política na ótica da teoria crítica radical, ou seja, com Marx para além de Marx, com particular ênfase na crítica do valor, da dissociação e do fetichismo da mercadoria e seu sujeito, centrada na crise da moderna sociedade produtora de mercadorias. No segundo semestre de 2007, o Instituto e o grupo Crítica Radical lançaram a proposta de realizar em 2008, por ocasião dos 40 anos do maio de 68, em Paris, um encontro de caráter transnacional. O objetivo era debater a crise atual à luz da crítica radical do valor-dissociação, fetichismo e sujeito, bem como a necessidade da construção de um novo movimento social de caráter transnacional emancipatório para superar a história das relações fetichistas. A idéia era revisitar o maio francês, em particular o movimento situacionista, estabelecendo nexos com a teoria crítica radical na atualidade tendo em vista fornecer elementos para uma práxis inovadora em plano mundial. A proposta não se concretizou, mas oportunizou a que no primeiro semestre de 2008, uma equipe de integrantes do Instituto e do grupo Crítica Radical, participasse de várias reuniões e encontros na Europa (Portugal, França e Itália) e em seguida no Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo) desenvolvendo esforços para a articulação desse encontro. O abalo financeiro no segundo semestre de 2008 e seus desdobramentos, reflexo da crise da barreira histórica do sistema, gerou uma grande perplexidade entre economistas, executivos, teóricos de diversos matizes e ideólogos do capitalismo e sua modernização. Essa circunstância, sem dúvida alguma, contribuiu para despertar nas pessoas um interesse maior pelas análises que, com bastante antecedência, já vinham sendo feitas pela crítica radical. No Fórum Social Mundial/2009, em Belém, a idéia da realização de um fórum transnacional antifetichista, apresentada num debate acerca da natureza da crise atual, contou com a adesão de um expressivo contingente de pessoas que participavam de uma acalorada discussão sobre a superação da crise. Neste espaço, foi debatida a urgente superação da paralisia do pensamento moderno e pós-moderno e construção de um novo
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movimento de transformação de toda a sociedade capaz de sair da imanência e ultrapassar o sistema produtor de mercadorias. Vale ressaltar que agora essa proposta começa a ter uma grande amplitude na medida em que ao hoje Instituto Crítica Radical se somam críticos(as) radicais do Brasil e do mundo e outras entidades e instituições na promoção do evento em plano local, nacional e internacional. Assim, a realização dos eventos propostos dá prosseguimento à tarefa de enfrentar a chamada “crise de paradigmas” que continua permeando a atual produção nas ciências humanas em suas diversas especializações. Com esse propósito discutirá as categorias fundantes do sistema produtor de mercadorias na ótica da crítica radical, englobando no debate as diversas contribuições e tradições dessa linha de pensamento que são originárias da percepção de um duplo Marx, ou seja, o Marx exotérico e o Marx esotérico.

IV – JUSTIFICATIVA

O discurso do presidente Bolsonaro na abertura da Conferência da ONU, não deixa mais nenhuma dúvida. Os governantes estão dispostos a tudo para levar em frente a administração da barbárie cuja devastação humana e ambiental é inimaginável. A busca da resposta para a superação dessa barbárie já começou. Suas raízes remontam para a própria origem do capitalismo. Como estamos diante do esgotamento do valor-dissociação, ou seja, das próprias fontes do capitalismo, irrompe a oportunidade histórica para sua superação. Mas cabe aqui um alerta: se o fetichismo não é exterior ao sujeito e se a formafetiche é a própria forma-sujeito, então não podemos mobilizar conseqüentemente os sujeitos enquanto sujeitos para a superação da relação social que os contém. Um exemplo notável disto é que os governantes, os políticos e seus partidos de direita, de centro e de esquerda, dirigentes sindicais, intelectuais e integrantes dos movimentos sociais não levaram em conta o alerta de que a mudança no modo de produção do capitalismo o levaria a uma crise do seu limite. Não perceberam e, hoje, estão despreparados e totalmente desprovidos de um projeto à altura do Século XXI. Pois quando o objeto da crítica se modifica, também a própria crítica deve modificar a si mesma. Hoje, as transformações da nossa época exigem uma ruptura inusitada com o capitalismo e todas as suas expressões políticas em curso. As novas forças produtivas da microeletrônica e mais ainda, recentemente, a 4ª revolução industrial, escancararam seu verdadeiro potencial de crise. Pela primeira vez na história, a riqueza material é produzida mais pelo emprego tecnológico da ciência do que pelo dispêndio do trabalho humano abstrato. Antes, o fordismo marcava o apogeu do sistema. Agora, a informatização marca sua entrada definitiva em crise! Não apenas em um aspecto particular, mas em seu aspecto central. Trata-se da contradição entre o conteúdo material da produção e a forma imposta pelo valor, pela valorização do dinheiro. O aumento incessante da produtividade do trabalho atingiu uma situação tal que o valor novo adicionado por unidade de produto é insignificante. O capitalismo, por causa da concorrência, levou essa produtividade ao infinito. Com isso, acabou produzindo uma drástica redução do valor (que se expressa no dinheiro) e da mais-valia (mais valor que se expressa no lucro) nele incluídos. Eles estão zerando. Eis aí a contradição em processo do capitalismo que está derrotando o próprio capitalismo. Agora, a capacidade de racionalização do trabalho é maior que a capacidade de expansão do mercado. Com isso, a medição da riqueza pelo critério do valor, ou seja, da valorização do dinheiro, se tornou insustentável. O trabalho deixa de ser a fonte principal da riqueza e o tempo de trabalho deixa de ser sua medida. Hoje, a redução do tempo de trabalho a um mínimo está em contradição antagônica com o tempo de trabalho como
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medida e critério da produção. Eis aspectos fundamentais que explicam a causa e a natureza da crise atual do mundo globalizado. Com isso, o capital perdeu sua dinâmica. Sua substância, o trabalho, esvai-se. Sua expressão, o dinheiro, vira dinheiro sem valor. Suas formas de pensamento e formas de existência tornaram-se obsoletas. Suas relações patriarcais capitalistas mostram que seu tempo histórico está esgotado. Sua crise já não é mais de expansão. Seu sistema sobrevive à beira do colapso. O capitalismo hoje se comporta como um sistema condenado à morte. Sua execução, no entanto, vinha sendo protelada. A dobradinha mercado x estado vinha conseguindo adiá-la. A cada adiamento o sistema respirava fundo. O alivio, entretanto, durou pouco. O adiamento se configura agora como recuo da civilização. Sua razão iluminista passou a gestar trevas. Sua árvore dourada da vida fenece. Hoje nos deparamos diariamente com genocídio, ecocídio, enfim, barbárie. E o Brasil? O campeão de desmatamento do mundo começa a vivenciar o seu colapso. A situação se agrava. A economia encolhe. Toda a corrupção ainda não veio à tona. No cenário internacional está apagado. Caminha ladeira abaixo. Recessão à vista. Indústria em queda. Perspectiva de saída ainda ausente. O Brasil passou a viver com o poder de compra das pessoas pulverizado pelo desemprego em massa, pela inflação, pelos juros, pelo ajuste fiscal com novos impostos, pela alta do dólar, pela redução dos serviços públicos e dos investimentos estatais. Evidentemente, o que está aqui em jogo é a própria capacidade de existência e funcionamento do capitalismo. São manifestações que demarcam as suas fronteiras. Indicam um programa suicida do modo de produção capitalista. Essa situação torna injustificável que partidos políticos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais continuem atrelados ao mercado, ao estado, à política e à economia. Será que eles se dispõem a cometer suicídio junto com o capitalismo? A crise, como vimos, advém da fronteira histórica da valorização do fundamento da produção capitalista. Ao tentar contornar esse limite interno, com a fuga para frente da financeirização e crédito público, o capitalismo deu n’água. Essa crise já não mais permite saída nos marcos do próprio capitalismo. Afinal, as raízes dessa crise advêm da própria origem do capitalismo. Ademais, a problemática global da crise da sociedade capitalista encontra sua expressão na questão feminina. Está em cheque a identidade sexual desta sociedade. A superação do valor é também a superação da sua identidade masculina. Superar o patriarcado é superar o moderno sistema fetichista produtor de mercadorias. Por causa disso a crítica radical do valor, da dissociação sexual, do sujeito, da extinção da humanidade e do planeta e do iluminismo constitui um todo indivisível. Pois, essa crise expõe de maneira cristalina não só o limite interno, mas também o limite externo ecológico do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias. Hoje nos deparamos com o desaparecimento de várias espécies em todo o planeta Terra. Diariamente a destruição do equilíbrio dos sistemas naturais mostra a sua expansão. A diversidade da vida no planeta ficou drasticamente reduzida. A vida na Terra e a sobrevivência da humanidade estão em perigo. Estamos diante de um evento mais devastador que o impacto do asteróide que matou os dinossauros há 65 milhões de anos. Hoje, os asteróides somos nós – os seres humanos — que, ao teimarmos em manter as relações patriarcais capitalistas do moderno sistema fetichista produtor de mercadorias estamos provocando rastros de destruição impressionantes: alterando a composição da atmosfera através da emissão de CO2; aumentando a acidez dos oceanos; elevando a temperatura média do planeta e, conseqüentemente a temperatura dos oceanos e do nível do mar, colocando o planeta em perigo com muito mais regiões em risco; reduzindo drasticamente os recursos hídricos provocando secas; poluindo o ar; provocando enchentes; já comprometemos mais de 50% da superfície da terra; arrasamos uma enorme
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extensão das florestas tropicais; expulsamos espécies de seu habitat natural; provocamos danos irreparáveis ao ecossistema global; produzimos alimentos que matam os seres humanos; degradamos cada vez mais os serviços de saúde; já provocamos a extinção de uma grande porcentagem de todos os mamíferos, de mais de 40% dos anfíbios, de 1/3 dos corais, de 1/3 dos tubarões, de 1/5 dos répteis, de 1/6 das aves. São dados divulgados por cientistas de todo o mundo. Agora, podemos perceber que estamos diante da ameaça da extinção da humanidade e do planeta. Com isso fica colocada a urgência da construção de uma resposta à altura dos desafios da crítica radical da crise do sistema. E aqui entra uma questão decisiva. Essa crise mostra que o limite de nossa constituição como sujeito formatado pela matrix fetichista tornou-nos até aqui impotentes perante a criatura – o capitalismo – que se tornou maior que seu criador – o ser humano. Se não formos capazes de superar a nossa máscara de caráter de sujeito pós-moderno da decadência, constituindo-nos como antissujeitos para sairmos da camisa de força em que nos querem colocar, afundaremos nos seus horrores. Horrores que são conseqüência do funcionamento em fim de linha da própria lógica da sociedade do espetáculo. Como antissujeitos reuniremos as condições indispensáveis para encerrarmos o cântico das mercadorias e suas paixões. Com essa conquista poderemos cantar o ser humano e sua emancipação. A nossa luta agora é pela ruptura já com o moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias substituindo-o por uma nova sociedade. Nunca houve um período da história da humanidade em que a vontade consciente dos seres humanos tenha tido uma importância tão decisiva como tem agora para, através de um movimento social transnacional emancipatório, suplantar a sociedade capitalista. Nesse sentido, o Seminário e Encontro se justificam, principalmente, pelo esforço de divulgar e debater as mais recentes elaborações, reflexões e pesquisas de uma critica social avançada. Cabe destacar, em particular, o estudo e aprofundamento teórico da crítica radical do valor-dissociação, fetichismo da mercadoria, sujeito, trabalho, política, Estado, mercado, dinheiro, economia, direito, nação, etc. Desta revolução teórica constituiu-se um campo indispensável para uma crítica e uma práxis social inovadoras. O Seminário e Encontro justificam-se também porque ampliarão o alcance da divulgação dessas elaborações em plano mundial, estendendo para além-mar a concretização da atividade de extensão universitária e um momento para tornar público o resultado de pesquisas relacionadas ao instigante ternário. Tais elaborações remetem para a Inglaterra do século XIX, na época o laboratório mais avançado do modo de produção capitalista, onde a crítica radical descobre a célula germinal desse sistema, a mercadoria. Frente à dinâmica do capitalismo, cujo apogeu empolgou e modernizou o mundo e que hoje esbarrou no seu limite histórico, a crítica radical explica sua lógica com base no fundamento da produção burguesa, o valordissociação, bem como a natureza da crise atual. No entanto, no mundo dominado pelo fetichismo da mercadoria, esta nova abordagem teórica apresentada nos Grundrisse com seu desdobramento principalmente no primeiro capítulo de O Capital atravessou os tempos como proscrita. O próprio autor dessas obras contribuiu para isso ao desenvolver a idéia da história como história da luta de classes cujo desfecho desembocou na modernização capitalista e, hoje, no seu colapso. A interpretação da história como história das relações fetichistas permaneceu alheia e inquietante não só para o marxismo do movimento operário, mas também para a intelectualidade, em particular para socialistas e comunistas, bem como para membros dos partidos políticos, sindicatos, artistas, cientistas, trabalhadores, feministas, ecologistas, jornalistas, juventude, anarquistas, autonomistas, etc.
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Mas, se antes inexistiam publicações, reflexões e práxis voltadas para essa teoria ainda desconhecida, hoje nos deparamos com uma situação completamente diferente e estimuladora. Agora, a atitude de reprimir, esconder e desqualificar a crítica radical do fetichismo começa a ser superada. E, com isso, irrompe um movimento teórico tendo como fundamento a negação do sistema; vem à luz a sua abordagem acerca da irracionalidade do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias; surge, enfim, a crítica radical que capta a lógica destrutiva do processo de acumulação capitalista em seus fundamentos e limites e aponta para a sua superação. O desenvolvimento, a divulgação e o estudo desta teoria e a construção de um movimento social de novo tipo nela fundamentada, coincidem com o aprofundamento e acirramento da crise que traz à superfície os limites da lógica do sistema produtor de mercadorias. Evidencia-se, com isso, a possibilidade da superação do sistema capitalista, que surge, agora, compreensível e factível após a revelação dos seus segredos mais importantes. Esses aspectos ganharão muito mais abrangência com a realização dos eventos supracitados que já vêm despertando a sensibilidade, a curiosidade e a imaginação em todas s pessoas interessadas e preocupadas no desenvolvimento de atividades cientificas e culturais voltadas para o conhecimento e enfrentamento dos desafios colocados para a humanidade e o planeta no Século XXI. A realização do Seminário e Encontro pretende também contribuir de forma especial para uma maior e melhor apreensão do mundo dos que compõem os movimentos sociais, aqui e alhures, como uma forma de potencializar suas ações transformadoras.

V – OBJETIVOS GERAIS

Apresentar e debater as idéias que fundamentam a análise do impasse da sociedade atual que desemboca no colapso do capitalismo e que, por essa razão, constitui uma ameaça à humanidade e ao planeta, cujo desfecho pode ser o auto-aniquilamento da humanidade e a destruição da natureza. Isto reflete uma sociedade que, em conseqüência do fetichismo da abstração real do valor-dissociação, não tem consciência de si mesma, não decide livremente, não utiliza suas potencialidades, não consegue organizar diretamente sua própria forma de socialização. A causa desse fracasso foi captada e anunciada pela crítica radical cujo olhar teórico e prático, se volta agora para a suplantação do sistema. No entanto, até agora não havia nenhuma convocação transnacional para superarmos essa situação. Mas, encarar e responder a estes desafios tornou-se incontornável. Nesse sentido, urge construirmos um ambiente favorável para o pensar e o agir emancipatórios. Os eventos pretendem, portanto, encarar o fundamento lógico do sistema, seu desenrolar no tempo histórico e sua barreira mundialmente apresentada pela crise atual. Um Seminário e um Encontro que têm como objetivo a emancipação humana e ambiental com base na fundamentação teórica e prática da crítica radical do valor-dissociação. Esses eventos pretendem desencadear imediatamente o processo de construção de um movimento social emancipatório que transcenda o sistema produtor de mercadorias e inaugure a nova relação social. Uma oportunidade para o encontro do impensável com o impossível para ultrapassarmos a história das relações fetichistas. Enfim, um fórum que tem como objetivo a conquista da sociedade da emancipação humana. Esses objetivos norteiam a realização dos eventos, certamente ampliados em suas pretensões pelo acúmulo do debate e da expectativa da contribuição de outros pensadores e/ou correntes de pensamento. Ao mesmo tempo objetiva-se a articulação de movimentos sociais, coletivos e integrantes de instituições de ensino, pesquisa e extensão com vistas à construção de um novo movimento social transnacional emancipatório.
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Com a realização deste Seminário e Encontro pretende-se avançar na compreensão critica do mundo e fundamentar a atividade teórica e prática dos movimentos sociais que se colocam no terreno da transformação das condições de dominação fetichista sobre os seres humanos.

VI — OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Contribuir para que integrantes dos movimentos sociais de vários países, em particular da nossa cidade e estado, possam apropriar-se da problemática decorrente de uma dominação sem sujeito que leva o ser humano a um não sabe, mas faz, convertendo-o em morto-vivo, conferindo um poder sobrenatural às mercadorias, através de uma abstração real que é o verdadeiro sujeito das relações humanas. Tal conceito de fetichismo, central na análise crítica radical da sociedade contemporânea, esboça os fundamentos de uma crítica social renovada, uma verdadeira revolução teórica que atinge inclusive aqueles(as) que não tiveram acesso a essa formulação, inclusive em nível acadêmico, mas cuja reflexão e experiência lhes permitem apropriar-se e contribuir para a concretização dos objetivos gerais almejados. Difundir novas idéias e conceitos abrangentes com base na crítica radical do valor, do fetichismo, da dissociação e das formas de práxis social a eles correspondentes, a fim de complementar a formação de profissionais de ensino e intelectuais ligados à área, bem como contribuir para a renovação da reflexão filosófica, histórica, ecológica, científica e cultural do Ceará, do Brasil e do mundo. Integrar as ações de ensino pesquisa e extensão universitárias às reflexões e iniciativas práticas dos movimentos sociais inovadores. Divulgar elementos significativos para uma compreensão crítica da nossa cultura e arte, tendo em vista sensibilizar o maior número de pessoas para a beleza e a diversidade cultural do nosso estado e país. Fomentar um espaço permanente de confiança, camaradagem e cooperação entre indivíduos, grupos e movimentos sociais tendo em vista a criação de um movimento de caráter transnacional para uma ação comum coletiva na perspectiva emancipatória. Contribuir para a discussão de uma agenda comum e a organização de um movimento em rede, de caráter transnacional, no sentido da emancipação humana.

VII – METODOLOGIA:

Com o objetivo de fomentar o debate dessa nova abordagem teórica, cuja ausência é gritante na atualidade e, ao mesmo tempo, criar processos de organização e luta, contínuos e agregadores, propõe-se uma metodologia com vistas a estabelecer uma dinâmica de conhecimento mútuo e discussão coletiva dos participantes do Seminário e Encontro. O espaço presencial e virtual para sua realização tem que se constituir num ambiente mais do que apropriado não só para o livre debate das idéias, mas de soluções para a superação das ameaças que pairam sobre a humanidade e o planeta.

VIII – O SEMINÁRIO, O ENCONTRO E VOCÊ

Para você que está indignado(a) com a destruição e autodestruição em curso. Para você que quer empenhar-se numa construção coletiva de uma maneira de viver muito melhor do que a decomposição e descivilização reinantes.

Para você que busca a construção de um movimento inovador capaz de enfrentar e superar a crise oriunda de uma relação social que, não só fracassou, mas fenece. Esse Seminário e Encontro são para você. Venha participar da sua preparação e realização. Um encontro cuja criação coletiva pretende contribuir para nos emanciparmos do capitalismo. Trata-se de um diálogo imperdível com uma temática geral e temáticas específicas à altura dos desafios do século XXI. Com isso Fortaleza, Ceará, Brasil e o Mundo conquistam a oportunidade histórica para realizarmos o mais profundo e belo debate de todos os tempos. Experiências as mais ricas e as mais diversas virão de todo o estado, país e mundo. Além das exposições dos convidados(as) teremos o relato de várias pessoas que contribuirão para o enriquecimento do encontro. Atividades artísticas e culturais se desenrolarão, juntamente com todos os encontros coletivos, no circo especialmente montado para o pleno vôo das mentes abertas, criativas e forjadoras da transcendência ao modo de produção e vida capitalistas e, conseqüentemente, aos Trumps, Bolsonaros e cia. que administram a barbárie de um sistema que está na UTI, mas cuja tomada ainda não foi desligada. Textos, revistas e livros fundamentais serão lançados. Suas abordagens nos possibilitam elementos indispensáveis para dimensionarmos bem a complexidade da situação atual nos possibilitado elementos para uma apreciação crítica sobre acontecimentos marcantes da humanidade. Além de livros, filmes, vídeos, cordéis, exposições fotográficas, contações de histórias e poesias também serão apresentadas. Campings estarão à disposição em locais muito agradáveis. Com isso, esperamos colaborar para que os depoimentos candentes ecoem num espaço arejado que descortinarão, enfim, ares emancipatórios. Esse inusitado evento será realizado em Fortaleza e no Sítio Brotando a Emancipação, cujo projeto se fundamenta numa crítica radical e ruptura categorial prática ao moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias. O sítio, que namora com o mar na Praia de Barra Nova e com as águas do rio Choró, fica em Mangabeira, distrito de Cascavel, na Região Metropolitana de Fortaleza/Ceará. Pretende-se transmitir ao vivo toda a programação do evento para que em diferentes locais da Terra, as pessoas possam, de Fortaleza e do sítio, interagir com os(as) participantes, enriquecendo as discussões. Amigo(a), estamos diante da oportunidade histórica do desencadeamento da luta, teórica e prática, para a superação do sujeito fetichista narcisista e suplantação da sua sociedade produtora de mercadorias. Com a realização deste Encontro, esperamos contribuir com a gestação de um movimento que tem como meta a associação de indivíduos conscientes, livres, desfetichizados. ‘ Acalentamos durante muitos anos esse sonhar. Agora, queremos que ele se transforme numa aurora desmedida capaz de anunciar o brotar da emancipação. Contrariando Chico Buarque, já vale a pena despertar! Afinal, o sonho que se sonha junto é realidade. Esse sonho é nosso, meu, seu, da humanidade e do planeta.

IX – OBSERVAÇÕES FINAIS

Como vimos, através de nossa análise, o capitalismo só surgiu, se desenvolveu, superou suas crises e hoje, na sua decadência, balança, mas não cai, porque estão intactas suas forma sociais categoriais básicas. Elas resistem e permanecem há séculos gozando de uma perenidade de causar espanto aos seus novos coveiros. E, ainda hoje, são consideradas como axiomas implícitos, um pano de fundo tácito que é proibido questionar. Criticá-las é como se o mundo viesse abaixo por causa dessas críticas. Ao contrário, é exatamente por falta da crítica teórica e prática a essas categorias que o Brasil e o mundo mergulham nessa barbárie. Se isso persistir, persistirá o capitalismo. Persistirá a barbárie capitalista. Se as categorias fundantes do capitalismo continuarem existindo, deixará de existir o ser humano, a natureza e o planeta terra. Uma conclusão realista diante das catástrofes previsíveis, mas de dimensões imprevisíveis que se anunciam. A crítica radical do fetichismo no permite compreender que ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade. Por causa disso, a nossa história é a história das relações fetichistas. Vale dizer, não só a história contemporânea. Por mais diferentes que as relações sociais tenham sido na história das sociedades até aqui existentes, uma conclusão se impõe: todas elas foram dirigidas por meios fetichistas. Nunca existiram, portanto, sociedades autoconscientes que pudessem decidir livremente sobre o emprego de suas possibilidades. O moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias representa, apenas, a última forma social da dinâmica fetichista. Com isso o mundo capitalista passa, a partir de agora, a ser dimensionado como uma etapa passageira da história da humanidade. E a consangüinidade, o totemismo, a propriedade do solo e o valor passam a ser considerados como etapas do processo através do qual o ser humano se despregou da natureza, tornando-se um ser relativamente consciente em relação à primeira natureza, mas não ainda em relação à segunda natureza, que é a sua própria conexão social criada por ele mesmo. Com tudo isso, evidencia-se a resposta para a verdadeira dimensão da crise mundial do Século XXI. Trata-se da superação não só da história capitalista, mas da história existente até agora. Não só a era da guerra fria chegou ao fim. Chegou ao fim também a história mundial da modernização. Não apenas essa história especificamente moderna, mas a história mundial das relações de fetiche em geral. Daí a importância do Seminário e do Encontro para a humanidade e o planeta. Em razão de tudo isso, os(as) organizadores(as) e realizadores(as) do Seminário e do Encontro querem fazer deste tempo o seu tempo: um tempo para além da relação social do valor-dissociação. Um tempo para abrir perspectivas nas lutas das idéias e práticas sociais antifascistas, antixenófobas, antihomofóbicas, antisemitas, anti-rascistas, antimachistas e pelo fim da dominação, da exploração, da discriminação, da opressão, do sofrimento e da destruição do ser humano e do planeta. Sua razão de ser reside no fato de que o novo movimento social transnacional é a expressão concentrada de uma transformação histórica inusitada, realmente emancipatória. O que tem nele de realmente novo corresponde precisamente às novas tendências históricas que configuram essa crise de novo tipo da sociedade moderna. Uma crise que expõe, pela primeira vez, as fronteiras históricas do sistema capitalista. Uma crise que torna inútil o ser humano e a Terra inabitável. Captar essas tendências foi o primeiro sinal antecipado do triunfo da conspiração e subversão da crítica radical do valor-dissociação. Seu segundo sinal será a ruptura ontológica, a suplantação do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias e sua substituição por uma sociedade humanamente diversa e desfetichizada, socialmente igual e criativa, ecologicamente exuberante e bela, prazerosa no ócio produtivo e completamente livre.

Críticos(as) radicais de todo o mundo, uni-vos!

Abraços,

Crítica Radical

CARAVANA DA EMANCIPAÇÃO NO META-ARQUIVO

O Crítica está desconfiado.

Deu tudo certo em São Paulo.

A Mostra Meta-Arquivo no SESC Belenzinho foi arretada.

O Depoimento no Memorial da Resistência foi inusitado.

A presença do Crítica na Av. Paulista nos protestos contra a devastação da Amazônia com milhares de participantes surpreendeu pelo conteúdo inovador.

O encontro na USP com críticos(as) radicais do valor-dissociação de vários estados marcou a data para a realização do Encontro Transnacional .

E os(as) integrantes e amigos(as) do Crítica que viajaram para São Paulo não voltaram mais as mesmas pessoas.

O resultado dessas iniciativas com as propostas para a gestação da emancipação humana e ambiental em andamento quer contar com você.

O QUE FAZ DE UMA CRÍTICA, O CRÍTICA? TESES SOBRE METASSUJEITO

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é apenas ter compreendido / a ditadura civil-militar como expressão política / na fase da expansão do capitalismo.

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só recordar combates realizados / e redimensioná-los através da crítica radical do fetichismo

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a conspiração permanente / para sairmos do capitalismo imediatamente

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a interpretação de que / a história do capitalismo não se resume / na produção de mercadorias para as pessoas / mas das pessoas para as mercadorias

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a compreensão de que / a relação capitalista não engloba / todos os aspectos da vida e da consciência

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só o primeiro acorde / de uma melodia fascinante / onde a dança, a música e a poesia / são realizadas por uma orquestração deslumbrante

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a dimensão de que / a relação capitalista se reproduz / não só através da sua administração da barbárie / mas também do nosso consentimento

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a imaginação criativa / que embeleza e erotiza / o desejo, a paixão, o tesão / e o sonho humano e ambiental da emancipação

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é tão somente o seu chamamento / para emanciparmo-nos das formas sociais / autonomizadas e fetichistas

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a sua interpretação da história / de que o fundamento do capitalismo / não reside apenas na imposição / de indivíduos a outros indivíduos, / mas de uma relação social / imposta pelo valor-dissociação, fetichismo, …

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é apenas sua previsão / de que o sujeito que aí está / não vai radicalizar a luta contra a ordem / econômica e política da catástrofe vigente

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é somente a sua visão de que o sujeito narcisista / não capta o fetichismo porque / ele não é exterior ao próprio sujeito com sua subjetividade / mas que a forma-fetiche / é a própria forma-sujeito

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só sua revolta consciente / das rodas vivas da vida capitalista em colapso

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é somente sua dimensão / que a crise atual não é uma crise cíclica, / mas uma crise que abala os fundamentos do sistema, / que não só impede a passagem / de um estágio da vida para outro, / mas se constitui numa crise / de ruptura antropológica

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é somente a prospecção de que / a virtualização do mundo, a manipulação genética / com sua artificialização da procriação / e a redução à informática / de quase todos os aspectos da existência, / colocam em risco a própria vida

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a busca ininterrupta / pela transcendência diante da imanência / que só produz uma vida falsa / mas a instigação permanente de irmos muito além / pra construir uma vida autêntica, plena de sentido

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a convicção de que / a emancipação será obra nossa / ou não será emancipação

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só o enfrentamento / teórico e prático / no Sítio Brotando a Emancipação / para superar a forma universal / e invertida da consciência / historicamente constituída pelo fetiche

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só o seu alerta permanente / de que a crise do capitalismo / é a crise de sua fronteira histórica / e sua manutenção produz e fecunda / expressões políticas obscurantistas / que inundam o nosso dia a dia / com barbárie, ecocídio e genocídio

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é apenas a instigação / para enfrentar e superar as coações fetichistas / produzidas pelo moderno sistema fetichista / patriarcal produtor de mercadorias

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só o compromisso enfático / com a compreensão de que / estas coações fetichistas não se encontram / estabelecidas linearmente/ e podem ser disputadas no dia a dia

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a percepção de que uma lógica abstrata / real e dissociada sexualmente / assassina a humanidade e a natureza

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só termos contado com valiosas contribuições/ de amigos e amigas sem as quais / não teríamos chegado até aqui

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só sua luta diária contra a matrix fetichista, / as categorias fundantes do capitalismo, / o valor-dissociação, o racismo, a LGBTfobia, / a perseguição política, as guerras, / a discriminação, o antissemitismo / a ideologia e a ameaça de extinção / da humanidade e do planeta

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é somente a percepção de que / a estagnação e a falta de perspectivas / da arte moderna e pós-moderna correspondem / à estagnação e à falta de perspectivas / da sociedade da mercadoria / que entrou em decomposição.

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só tematizar o não tematizado, / mas se fundamentar numa autoconsciência / de que os novos escravos para se libertarem / vão ter que estar conscientes, livres e associados / para, como antissujeitos, construirem a ruptura / pela desfetichização do mundo

O que faz de uma crítica, o Crítica / é não só encarar o caminho / pra sair do capitalismo/ mas cortar os fios de meada / particularmente da forma-sujeito / que leva os indivíduos / a colaborarem para a manutenção do sistema

O que faz de uma crítica, o Crítica / é a compreensão de que o sujeito / é a forma na qual pensam / vivem e agem / os indivíduos na matriz /da constituição do fetiche capitalista

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é somente ter sido capaz de manter / sua identidade, coerência e atuação / teórica e prática durante um longo período

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só sua insistência permanente / de alertar a esquerda que o / colapso do capitalismo prenunciava / também o seu fracasso

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é somente sua compreensão de que / o capitalismo não é apenas a história / da opressão do sujeito pelo capital / mas a história do próprio sujeito / pois a crise que aí está / é a crise da forma-sujeito

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só sua infatigável conclamação/ação / para experiências práticas gestadoras / da maior façanha histórica do ser humano / que é substituir já o capitalismo

O que faz de uma crítica, o Crítica / não é só a compreensão de que / eu e você como metassujeitos / estamos diante da oportunidade histórica / para superarmos a segunda natureza / plasmada pela forma moderna e pós-moderna

O que faz de uma crítica, o Crítica / é não medir esforços / para a chegança desse momento / de uma conjugação extraordinária / para construirmos uma sociedade / humanamente diversa e desfetichizada/ socialmente igual e criativa / prazerosa no ócio produtivo /ecologicamente exuberante e bela / e completamente livre.

Obs: Ícaro Lira queria lançar na Mostra Meta-Arquivo uma publicação sobre o Crítica Radical. O objetivo era apresentar um balanço das nossas atividades e uma abordagem que explicasse aspectos essenciais do conteúdo do Crítica. Dois textos foram enviados e publicados. Um deles é apresentado aqui. 34 pessoas compuseram a nossa caravana para São Paulo. Numa homenagem a elas o poema-manifesto contém 34 teses.

METASUJEITO – Mensagem sobre Meta-Arquivo, o Encontro dos(as) Críticos(as) Radicais e a Emancipação Humana

O Crítica Radical foi convidado para a Mostra Meta-Arquivo1964-1985 – Espaço de escuta e leitura de histórias da ditadura no Brasilno Sesc Belenzinho, em São Paulo, nos dias 22, 23 e 24 de agosto. A exposição vai continuar até novembro.

Trata-se de um período que parece ainda não ter sido descoberto, apesar das provas (Traplev). Esta comprovação ganha atualidade diante das declarações do presidente Bolsonaro sobre o assassinato de Fernando Santa Cruz, abrindo a possibilidade de um balanço aprofundado sobre a conquista, a trajetória e ensinamentos da luta pela Anistia no seu 40º aniversário. Abre-se, com isso, uma brecha para uma apreciação circunstanciada sobre a luta contra a ditadura, negando todo o passado como era, assim como o presente que aí está.

Esta apreciação, por outro lado, possibilita depararmo-nos com uma outra descoberta sobre a natureza da crise atual que é diferente de todas as outras anteriores e fornece inúmeras comprovações sobre o limite do sistema. Com a primeira descoberta, não foi possível sair dos marcos do sistema. Através da segunda poderemos conquistar a emancipação humana e ambiental.

Durante muito tempo essa descoberta permaneceu desconhecida. Depois, ocultada. Agora, vem enfrentando uma distorção e perseguição implacáveis em razão de seu caráter conspirativo emancipatório. Antes, durante e nos desdobramentos da Mostra Meta-Arquivo teremos a inusitada oportunidade para levarmos ao conhecimento dos(as) interessados(as) todo o significado dessa história que ganha uma incrível atualidade.

A história do Crítica está entrelaçada por essas descobertas. Não dá para compreender o Crítica sem elas. Elas constituem os elos fundamentais da história do Crítica Radical. Uma advém da compreensão que a Ditadura Civil-Militar era a expressão política do capitalismo que ainda estava em expansão. A outra compreende o capitalismo como um nexo categorial sexualmente constituído por uma outra ditadura – a ditadura do tempo abstrato.

Uma, impulsionou a nossa luta para irmos para além da ditadura. A outra, alicerçou a nossa convicção de que a ultrapassagem do capitalismo entrou na ordem do dia. Ambas nos possibilitaram experiências riquíssimas, tanto do ponto de vista teórico quanto prático. Ambas constituem as balizas que marcam a nossa luta imanente versus a nossa tentativa de transcendência ao capitalismo.

Como se sabe, a imanência ficou aprisionada na modernização do capitalismo. Com a entrada desse sistema em colapso, a caducidade da imanência se escancarou. A transcendência, por outro lado, ganha uma enorme relevância no nosso tempo presente, ao demonstrar a impossibilidade para expressões políticas das administrações atuais da barbárie, aqui e no mundo, de continuarem mantendo o capitalismo diante da fronteira histórica do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias.

Torna-se evidente agora que a insistência para manter e/ou prolongar a vida capitalista tem gravíssimas consequências. O humano tornou-se inútil. A terra inabitável. O ser humano e a natureza, que reúnem hoje condições de se emanciparem, estão sendo forçados a uma única opção: submeterem-se a sofisticados mecanismos para a continuidade do sistema. Aceitar cometer esse suicídio ao lado do capitalismo é o reconhecimento explícito da nossa colaboração para que a destruição e autodestruição do sistema em curso resultem na extinção da humanidade e do planeta.

Após muitos anos de persistente atuação de diversas pessoas no Brasil e no mundo, o Crítica se depara com este surpreendente convite para essa mostra. Entendemos que esse convite é para todas essas pessoas. É de todos(as) nós e para todos(as) nós. Em razão disso, num lugar apropriado, independente da mostra, queremos juntar essas pessoas, presencial ou virtualmente, para um intransferível momento de somarmos forças tendo em vista respondermos à oportunidade histórica para impulsionarmos a construção da conquista da emancipação humana.

Mas, se quisermos enfrentar e ir além das complexas e intricadas questões com as quais nos deparamos, teremos que nos superar enquanto sujeitos e, como antissujeitos integrantes de um movimento transnacional emancipatório, darmos asas à nossa criatividade, imaginação, paixão, instigação, conspiração, … para fundamentar e alcançar, teórica e praticamente, a desfetichização do mundo.

Esta façanha histórica está provocando críticos(as) radicais do valor-dissociação do Brasil e do mundo para que se reúnam e comecem a construção de um Encontro Transnacional Emancipatório, dando assim um salto no enfrentamento dos desafios atuais da humanidade e do planeta.

Isto ganha uma relevância desmedida diante da aproximação da realidade ao pensamento crítico radical, mostrando a insustentabilidade dessa sociedade baseada na lógica do valor-dissociação e que agora, diante do seu limite interno e externo, vê estupefata o desmoronamento de seus fundamentos.

A ruptura definitiva com o capitalismo pode encontrar, hoje, a sua viabilidade concreta realizando na prática a suplantação do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias. Chegou o momento de superarmos a história das relações fetichistas, e construirmos uma sociedade humanamente diversa e desfetichizada, socialmente igual e criativa, ecologicamente exuberante e bela, prazerosa no ócio produtivo e completamente livre.

CRÍTICA RADICAL PARTICIPA DA MOSTRA META-ARQUIVO NO SESC BELENZINHO – SÃO PAULO – 22, 23 E 24 DE AGOSTO

 Caros(as) Amigos (as)

O Crítica Radical recebeu um convite irrecusável.

No dia 22 de agosto, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, abre-se uma exposição especial sobre a construção da história brasileira.

Trata-se da mostra Meta-Arquivo1964 -1985 – Espaço de escuta e leitura de histórias da ditadura no Brasil, nos dias 22 a 24 de agosto, cuja programação contém a trajetória do Crítica com seus desafios atuais. Além da dimensão e relevância do evento como um todo, consideramos muito importante a iniciativa de incluir na programação a trajetória do Grupo Crítica Radical .

Estamos aproveitando a oportunidade para realizarmos um encontro com críticos radicais do Ceará, de S. Paulo, do Rio, de Porto Alegre, Minas, de outros estados e países identificados ou interessados na crítica radical do valor-dissociação.

Os momentos da programação que deveremos participar são:

22/08 – Quinta – Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1000 – próximo ao metrô Belém)

          – 15h15 – 16h15 – Conversa com os educadores da exposição 

          – 18h – Encontro do Grupo de Trabalho Meta Arquivo com a participação de todos os artistas – balanço final sobre processo de pesquisa (aberto ao público) – Sala de Espetáculos 2

            – 20h – Abertura da exposição e performance Inquérito de Paulo Nazareth – Galpão

23/08 – Sexta – Memorial da Resistência – Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia,

            – 10h – Gravação do depoimento do Jorge no Memorial da Resistência (ex-DEOPS) onde foi preso.

            – 14h – Uma visita ao espaço com o educativo com Ícaro, Jorge, Rosa e Maria

24/08 – Sábado – Abertura do programa público – Sesc Belenzinho

            – 15h – Memória e Resistência – Encontro com Ícaro Lira e o Grupo Crítica Radical – Espaço de Pesquisa Meta Arquivo (Galpão)

            – Em seguida, encontro com outros artistas.

________________________

É um momento especial para participarmos da Mostra e nos reunirmos.

Como pode ver, teremos um tempo livre, independente da programação do SESC, no sábado pela manhã podendo entrar pela tarde e, se for o caso, domingo pela manhã para nos encontrarmos.                      

A ideia é, entre outras iniciativas, programarmos a realização de um Encontro Transnacional Emancipatório, onde possamos colaborar para o enfrentamento e superação dos desafios atuais do Brasil, da humanidade e do planeta. Estão convidados. integrantes da revista Jaggernaut (Anselm e amig@s), do site Obeco (Portugal), da revista EXIT (Roswitha e amig@s). Se não puderem comparecer, poderão participar pela internet. Já confirmaram presença @s professor@s Marildo Menegat (UFRJ) e Olgária Matos (USP/UNIFESP). O professor Paulo Arantes (USP) lamentavelmente tem uma programação em Fortaleza no mesmo período e não vai poder participar. Mas colocou-se à disposição para outras oportunidades. Os contatos continuam. Com base nesse quadro programamos o encontro para Sábado, 24.08, pela manhã. 

Um abração

Crítica Radical

PS – Segue a programação resumida do SESC. https://www.sescsp.org.br/programacao/198591_METAARQUIVO+1964+1985#/content=saiba-mais  

Sesc SP

Meta-Arquivo: 1964 – 1985. – Espaço de escuta e leitura de histórias da ditadura 

Meta-Arquivo é uma inquietação e uma pesquisa sobre a ditadura civil-militar brasileira. Parte de seu processo foi a criação, há um ano, do grupo de trabalho Meta-Arquivo, do qual participam os artistas, a equipe da exposição e as equipes do Memorial da Resistência de São Paulo e do Sesc Belenzinho.

A exposição ocupa o espaço expositivo do galpão com a produção dos artistas Ana Vaz, Grupo Contrafilé, Grupo Inteiro, Giselle Beiguelman, Ícaro Lira, Mabe Bethônico, Paulo Nazareth, Rafael Pagatini e Traplev. As histórias da ditadura são contadas a partir de seus trabalhos, centrados entre 1964 e 1985, e comprometidos com uma rede de arquivos e centros de memória sem os quais este projeto não aconteceria.

Na exposição, foi criado um espaço dedicado à consulta pelo público dos livros, documentos e referências levantados no processo de pesquisa. Esse material, coletado pelo grupo de trabalho, foi reunido pela curadoria em dossiês e organizado como uma pequena biblioteca.

No projeto arquitetônico desenhado por Anna Ferrari, estruturas metálicas aparentes cortam o galpão do Sesc Belenzinho, fixadas entre o piso e o teto, e enquadram as obras e suas superfícies em madeira. A alusão ao mobiliário arquivístico e escolar corporifica o conjunto. Sem divisões, as histórias sobrepõem-se, o arquivo pode ser visto em toda sua dimensão; conteúdo e estrutura são indissociáveis. Anna Ferrai traz ainda para o grupo de trabalho o testemunho de sua família, com a série de cartas escritas por León, seu avô, sobre o desaparecimento de seu filho e a namorada, mortos pela ditadura militar argentina. Essas cartas, parte do acervo da Fundación Augusto y León Ferrari Arte y Acervo, são a epígrafe da exposição.

No quadro geral, Meta-Arquivo é um espaço de escuta e leitura de histórias da ditadura e todas e todos estão convidados a entrar nessa atmosfera. O que é visível nesse momento é o potencial de transmissibilidade de todas essas vozes reunidas. O que se faz vivo nesse processo é a percepção de que a justiça se constrói pela mediação. Nos efeitos devastadores da negação dessas histórias, sua intencionalidade está na pesquisa e na sobrevivência de espaços de reflexão e ação no campo da arte brasileiro.

Curadoria e Pesquisa
Ana Pato

Artistas Convidados
Ana Vaz, Contrafilé, Giselle Beiguelman, O Grupo Inteiro, Ícaro Lira, Mabe Bethônico, Paulo Nazareth, Rafael Pagatini, Traplev

Projeto Expográfico
Anna Ferrari

Design Gráfico
O Grupo Inteiro

Produção Executiva
Nós da produção | Alita Mariah e Rafael Moretti

Coordenação Editorial
Julia Ayerbe

Projeto Educativo
Contrafilé

 Abertura
22 de agosto de 2019, quinta-feira, às 20h.

Meta-Arquivo: 1964 – 1985.

Realizado em parceria com o Memorial da Resistência, Meta-Arquivo articula-se no desejo de repensar as instituições de memória e suas práticas, e mobilizar processos de pesquisa em arte, para a criação de espaços de escuta e reflexão sobre a experiência histórica traumática brasileira.

PROGRAMAÇÃO

Encontro com Artistas – Apresentação dos Processos de Pesquisa

22/08 – QUINTA – 18h às 20h –  Belenzinho

Encontro de encerramento do Grupo de Trabalho Meta-Arquivo, com apresentação dos processos de pesquisa dos artistas ao longo da produção das obras para a exposição.

Com Ana Vaz, Giselle Beigelman, Grupo Contrafilé, Grupo Inteiro, Ícaro Lira, Mabe Bethônico, Paulo Nazareth, Rafael Pagattini, Traplev e a curadora Ana Pato.

Local: Sala de Espetáculos II

Duração: 2h

[Foto: divulgação]

Inquérito

22/08 QUINTA – 20h

Ação performática de Paulo Nazareth na qual reproduzirá, a partir de uma matriz em pedra de litogravura, um documento dos militantes do Comando Nacional da VAR-Palmares encontrado num “aparelho”, que ensina como sobreviver a uma tortura. Um escrivão aposentado estará no espaço expositivo em uma mesa de delegacia para datilografar esse documento, que ficará exposto como resíduo da ação.

Paulo Nazareth. O trabalho de performance e instalação do artista explora com frequência suas raízes africanas e indígenas. Sua caminhada-performance representa um questionamento lento e em tempo real de sua própria experiência e dos indivíduos que encontra, traçando uma sutil matriz de conexões que vincula pessoas, comunidades e histórias compartilhadas. O artista ganhou o Prêmio MASP de Artes Visuais (2012) e seu trabalho já foi apresentado em mostras individuais e coletivas ao redor do mundo. Sua obra integra as coleções Boros Collection (Alemanha), Thyssen-Bornemisza Art (Áustria), Pinault Collection (França), Rubbel Family Collection (EUA), Coleção Banco Itaú, MAM e Pinacoteca do Estado de São Paulo. Vive e trabalha em Belo Horizonte e pelo mundo.

Local: Galpão

Memória e resistência: encontro com Ícaro Lira e o grupo Crítica Radical

24/08 – SEXTA – 15h às 16h30  Belenzinho

Como parte de sua pesquisa dedicada às atividades do grupo militante Crítica Radical, Ícaro Lira convida para uma fala pública os integrantes do grupo Rosa da Fonseca, Maria Luiza Fontenele e Jorge Paiva (CE).

Local: Galpão – Duração: 1h30

[Foto: Acervo pessoal Rosa da Fonseca]

Memória e resistência: encontro com Traplev e Amelinha Teles

24/08 – SÁBADO – 16h30 às 18h  Belenzinho

META-ARQUIVO: 1964 – 1985.

Abordando a memória das organizações clandestinas do período de 1960-1970 que lutaram contra a ditadura militar no Brasil, Traplev propõe uma conversa com Amelinha Teles, escritora, feminista e membra da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Com Traplev e Amelinha Teles.

Local: Galpão

Duração: 1h30

[Foto: arquivo público do Estado de São Paulo]

Mineração e Ditadura: Encontro com Mabe Bethônico e Ana Carolina Reginatto

24/08  18h às 19h  Belenzinho

META-ARQUIVO: 1964 – 1985.

Debruçando-se sobre a atuação das empresas mineradoras durante a Ditadura Militar Brasileira, Mabe Bethônico apresenta sua pesquisa em uma aula pública com a convidada Ana Carolina Reginatto Moraes, doutoranda pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Mabe Bethônico e Ana Carolina Reginatto (RJ).

Local: Galpão

[Foto: Mabe Bethônico]

Patética

30/08 a 08/09 – Diversos Horários – Belenzinho

Meta-Arquivo: 1964 – 1985. – Espaço de escuta e leitura de histórias da

Patética reflete sobre as circunstâncias e o assassinato do jornalista e dramaturgo Vladimir Herzog (1937-1975), morto nos porões do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), em outubro de 1975. O texto foi escrito um ano depois de seu falecimento, por seu cunhado e, também dramaturgo, João Ribeiro Chaves Neto. 

Local: Praça Central – Duração: 1h – [Foto: Divulgação]


TEATRO

Comum

30/08 a 15/09 – Diversos Horários – Belenzinho

META-ARQUIVO: 1964 – 1985.

Três histórias ligadas à descoberta de uma vala comum clandestina criada no período da Ditadura Militar Brasileira. A busca de um filho por informações de seus pais desaparecidos políticos. O dilema de dois coveiros encarregados da criação de uma vala. Uma jovem estudante que se aproxima do ativismo político. 1970/1990 épocas distintas se entrelaçam nos fragmentos dessas histórias e evidenciam causas e consequências.

Comum foi inspirado na história da vala comum do Cemitério Dom Bosco no bairro de Perus, São Paulo/SP.

Criação: Grupo Pandora de Teatro
Texto e direção: Lucas Vitorino
Elenco: Filipe Pereira, Rodolfo Vetore, Rodrigo Vicente, Thalita Duarte e Wellington Candido
Design de luz e música: Elves Ferreira
Operação de Luz: Caroline Alves
Edição de Vídeo: Filipe Dias
Figurino: Thais Kaori
Cenografia: Lucas Vitorino e Thalita Duarte
Cenotecnia: Eprom Eventos e Luis Fernando Soares
Operação de Vídeo: Lucas Vitorino
Treinamento corporal: Rodrigo Vicente e Rodolfo Vetore
Preparação corpo e voz: Paula Klein
Assessoria de imprensa: Frederico Paula (Nossa Senhora da Pauta)
Assessoria de gestão de grupo: Cynthia Margareth (Aflorar Cultura)
Produção: Caroline Alves e Thalita Duarte

Local: Sala de Espetáculos I. 

Duração: 110 min.

[Foto: Luh Silva]

Não recomendado para menores de 14 anos

 

LANÇADA NOVA REVISTA NA FRANÇA COM BASE NA CRÍTICA RADICAL DO VALOR

Foi com grande alegria que recebemos de Anselm Jappe, há alguns meses, a notícia de que estava sendo lançada na França uma revista tendo como referência editorial a Crítica do Valor e a ruptura categorial. A gora é com alegria incontida que divulgamos o editorial em português.

Make Critical Theory Great Again”

Editorial em português do número 1 da revista Jaggernaut. Crise e crítica da sociedade capitalista patriarcal –

“Ainda nos impõem fazer o que é negativo; o positivo já nos foi dado”

Franz Kafka, Aforismos de Zürau

“A liberdade seria não a de escolher entre branco e preto,

mas a de escapar dessa escolha pré-estabelecida”

Adorno, Minima Moralia. Reflexõesa partirda vida danificada

 EDITORIAL – JAGGERNAUT N°1 EM PORTUGUÊS

   Durante décadas os argelinos nomearam o jornal governamental de seu país de “Tudo vai bem”. Assegurava-se aos cidadãos que eles viviam, graças à sabedoria do governo, no melhor dos mundos possíveis, e que os problemas restantes seriam resolvidos em breve. Hoje tal relação com a verdade, por parte das instâncias oficiais, persiste ainda em uma parcela do mundo. Mas, ao menos no mundo “ocidental e livre”, ela soa como arcaica. Não que os governantes tenham se tornado mais sábios e mais modestos. Eles sabem simplesmente que tal mentira não é mais sustentável.

   Com efeito, o cidadão contemporâneo sabe que está cercado por perigos mortais, aos quais ninguém pode prometer remediar sem causar imediatamente risos. Catástrofes por todos os lados. De acordo com sua sensibilidade pessoal, cada um pode pensar que o pior é o desemprego de massa ou o aquecimento climático, o racismo ou a imigração “incontrolada”, a corrupção ou as desigualdades persistentes, a poluição ou a perda de poder de compra, as violências policiais ou a “insegurança”. Há catástrofes e a perspectiva é negativa, como dizem as agências de classificação de risco.

  Não tem necessidade de ser um “anti-sistema” feroz para fazer com que quase todos admitam que o mundo vai muito mal. Basta ler um jornal burguês de qualidade média para se convencer disso a cada dia. E, deste ponto de vista, não seria, portanto, necessário fundar uma nova revista para difundir notícia ruim.

  Em contrapartida, quanto a identificar as causas das desgraças em curso, é uma coisa bem diferente! O sujeito contemporâneo encontra-se diante de uma miríade de tentativas de explicação, cujo ponto comum principal é não ter ponto comum e fragmentar-se em um mar de explicações parciais.

  O que falta, e falta cruelmente, é a teoria, os esforços coerentes para compreender a realidade através de uma teoria. Em uma sociedade habituada desde muito tempo à aceitação passiva de tudo por todos, em que as únicas forças organizadas são as que querem a continuação do capitalismo e do espetáculo, é evidente que o que nós devemos realizar hoje é a crítica implacável de tudo o que existe. 

  O que falta efetivamente é uma teoria forte que retome a contestação global da vida capitalista em todos os seus aspectos, opondo-se à dispersão pós-moderna e à simples adição de queixas particulares; uma teoria que se inspire no radicalismo da teoria situacionista, mas no contexto de uma época profundamente diferente, que se distancie do marxismo tradicional e ao mesmo tempo se apoie principalmente na crítica da economia política elaborada por Marx nos seus anos tardios.

   Uma teoria que, sondando a dimensão profunda da modernidade, busque compreender as categorias de base do sistema de produção de mercadorias e seu outro polo, o polo político, estatal, jurídico e nacional, não como objetos ontológicos positivos a serem afirmados, mas como objetos teóricos, negativos e destrutivos a serem criticados.

  Uma teoria que se proponha mais do que afirmar o existente, quer dizer, o direcionamento da economia de “trabalho abstrato” com a ajuda do Estado, da ditadura do proletariado e da “democracia direta”, opondo o homo politicus ao homo oeconomicus, uma teoria que, ao contrário, estabeleça que estes aspectos são apenas diferentes facetas de um mesmo modo de produção a ser abolido.

   Uma teoria que não se contenta mais com deduzir tudo de uma “contradição principal”, mas que se esforça para analisar a relação de gênero assimétrica como coessencial da socialização capitalista, porque o universalismo herdado das Luzes é estruturalmente sexista, racista e antissemita.

   Uma teoria que considere que o simples fato de incensar os diversos movimentos contestatórios e insurrecionais não faz avançar a causa da emancipação social, pois uma transformação verdadeiramente revolucionária não progride senão na medida em que nela se crítica – sem piedade! – os princípios e as etapas, a fim de ir mais longe, descartando meias-medidas, repercussões negativas e derivadas; sem o que todo procedimento pode muito bem se converter em seu contrário.

   Uma teoria que não seja “serva” de uma pretensa práxis, que não corra atrás de tudo o que se move, atribuindo virtudes geralmente imaginárias a toda forma de protesto e de revolta, mas que ao mesmo tempo não seja nem universitária, nem uma questão de pequenos círculos entre si.

  Uma teoria que não sirva nem para promover carreiras acadêmicas, midiáticas ou políticas, nem para acertar velhas contas.

  Uma teoria que não busque poupar um “público” presumido, nem forjar alianças ou formas de “unidade”; uma teoria que saiba ser cortante quando é necessário, mas que evite ao mesmo tempo o “narcisismo das pequenas diferenças” e a polêmica estéril que tem seu fim em si mesma, ou que não serve senão para demonstrar sua própria superioridade e para estabelecer sua pequena soberania na poça de sapos da esquerda radical.

  Uma teoria que evite as personalizações e que não identifique o capitalismo com “os capitalistas” ou “os dominantes”, para ao mesmo tempo absolver os sujeitos da mercadoria de toda responsabilidade, declarando-os simples vítimas.

Uma teoria que seja radical, a mais radical possível, na sua abordagem teórica e nas suas análises, mas que não tenha necessidade da auréola existencialista do “nós contra o resto do mundo”.

   A teoria, para poder ser radical, deve se subtrair à obrigação – que geralmente se lhe atribui – de ser “útil” a qualquer preço e de mostrar sua aplicabilidade imediata. Mas ela não deve ficar contente consigo mesma; seu objetivo último permanece o que se pode chamar de revolução social ou emancipação.

   Uma teoria que, ao analisar a crise final da relação-capital por meio das suas contradições internas, saiba que o que sai do ventre da crise não será senão um pouco mais de barbárie. Uma emancipação objetivamente determinada é uma contradictio in adjecto.

   Uma teoria que considere que é inevitável que um movimento social reconstituído apareça em um primeiro momento como tratamento imanente das contradições – inclusive no terreno da luta de classes. Mas uma teoria que saiba também que o potencial revolucionário de um movimento dependerá de sua capacidade de radicalizar suas perspectivas contra o trabalho e o Estado. Toda a história do capitalismo mostra que as vestes pavorosas da exploração, da nova condição de supérfluo ou da miséria extrema, não bastam nunca para vestir um sujeito revolucionário que tratar-se-ia simplesmente de despertar. Emancipar-se da lógica capitalista-patriarcal quer dizer que o trabalhador considera sua condição como aquela que é preciso abolir e não realizar. Não se trata de libertar o trabalho do capital, mas de se libertar do trabalho. Da mesma forma, os aspectos “dissociados”, como a “raça”, o “feminino”, o “inválido”, etc., são aspectos a serem abolidos e não afirmados. Não se trata de libertar o “dissociado” promovendo seu reconhecimento e sua integração na forma-sujeito, mas de se libertar de sua própria possibilidade. A ruptura com as categorias do trabalho e seu lado dissociado não pode contar com um campo social ou um sujeito “inocente”, preexistente, totalmente pronto e objetivamente determinado.

   O que falta é uma teoria para a qual não existe contradição principal que encurralaria inevitavelmente um sujeito a se constituir como “revolucionário”. Não existe situação objetiva sob a pressão da qual a transição para além do capitalismo tornar-se-ia inevitável e automática. Quando a incapacidade do capitalismo de garantir a reprodução social aumenta, atingindo todos os grupos sociais, tudo pode sair do ventre hediondo do sujeito moderno em crise, e, de início, todas as práticas e ideologias de crise próprias do antissemitismo, do racismo, do populismo, do nacionalismo, do culturalismo identitário, do anticapitalismo reacionário, do neoescravismo, do patriarcado barbarizado, do religionismo, do neofascismo, etc. Uma vez que o capitalismo impõe aos indivíduos a própria forma-sujeito (as “máscaras de personagem” diz Marx), tratar-se-á de contribuir para a criação de um novo conceito de revolução, que não seja a afirmação de um sujeito, nem mesmo o “revolucionário”, cujo núcleo estaria supostamente ileso de toda implicação na lógica capitalista. Com efeito, não se trata mais de buscar ou libertar o sujeito, mas de se libertar do sujeito, de arrancar, portanto, as máscaras sociais que nossa velha inimiga, a mercadoria, imprimiu nas nossas faces. Assim como o capitalismo, do qual é o modo de subjetivação, o sujeito moderno “não morrerá de morte natural” (Walter Benjamin).

   Não são somente as condições objetivas ou a origem social dada pelo lugar ocupado na objetividade de um sistema que importam, é a maneira que explode em cada indivíduo singular, seja qual for sua posição dada, a experiência negativa da crise da forma sujeito do trabalho, do direito, da política, da nação, etc. – quer ele tenha interiorizado esta forma, quer ele tenha sido excluído dela porque foi declarado supérfluo, ou está simplesmente ameaçado de sê-lo. O ponto de partida para uma “ruptura ontológica” (Robert Kurz) com a forma mutilada da vida social sob o capitalismo-patriarcado não pode ser senão “o nojo perante a própria existência como sujeito do trabalho e da concorrência, e a rejeição categórica do dever de continuar funcionando num nível cada vez mais miserável. Apesar de sua predominância absoluta, o trabalho nunca conseguiu apagar totalmente a repugnância contra as coerções impostas por ele” (Manifesto contra o trabalho). Hic Rhodus, Hic salta!

   O que nos falta é uma teoria para a qual a revolução não seja um ato de uma classe no interior do capitalismo que derrube outra classe, mas a obra de uma reunião insurrecional desses “indivíduos desejosos de se livrar do ‘sujeito automático’ (independentemente das respectivas posições no seio do capitalismo), em confronto com a parte da sociedade (também independentemente da sua posição dada) que quer absolutamente conservá-lo e encontrar sua salvação na concorrência sem escrúpulos” (Kurz, Ler Marx, disponível em:http://obeco.planetaclix.pt).

   Uma teoria que queira ir além dos conflitos de interesse internos ao capitalismo (tal como os que opõem o assalariado ao capital), que permanecem sempre inscritos na lógica do sistema; que aprofunde a distância cada vez maior entre as formas de tratamento “imanente” dos conflitos, que acabam por reforçar o existente, e as formas “transcendentes”, que visam além do sistema de mercado.

   Uma teoria que considere que, se aprofundada e radicalizada esta distância, pode-se deslocar as linhas no seio das lutas sociais e da esquerda, lançar ao mar seu anticapitalismo truncado ou seu altercapitalismo e recompor novas “polarizações” no próprio seio dessas lutas e um “contra-espaço público” que abra a via à negação imediata do ditame da financiabilidade. Assim, poderá aproximar-se da abolição da riqueza abstrata capitalista (o valor), do trabalho, do dinheiro, da forma-sujeito, das classes, dos gêneros, do racismo, do Estado, do direito e da política.

   Uma teoria para a qual o conteúdo tradicional das revoluções históricas será obsoleto. Uma teoria em que a criação imediata de relações sociais comunistas entre os indivíduos, no próprio curso da prática emancipadora, será o próprio conteúdo da revolução, transformando, sem transição, a vida mutilada mortífera em uma forma de vida social solidária, não-econômica, sem dinheiro, sem lucro e sem Estado.

   Uma teoria que não tenha, portanto, “respeito” pelas vacas sagradas da tradição de esquerda, da tradição marxista e revolucionária. Uma teoria que, se ela sabe reconhecer os aportes importantes desta tradição, sabe também que uma grande parte desta é hoje inútil, até mesmo contraprodutiva. Uma teoria que saiba, ainda, que é preciso então recomeçar quase do zero para pensar o capitalismo contemporâneo com uma parte da obra de Marx como (quase) único guia, sabendo que não se trata de um “texto sagrado”. Uma teoria que saiba, enfim, que mesmo os poucos desenvolvimentos teóricos e práticos que foram aportados, depois de Marx, à “boa velha causa” – o jovem Lukács e I. Rubin, a Escola de Frankfurt e a Internacional Situacionista, Gustav Landaeur e os anarquistas espanhóis, e Jean-Marie Vincent, entre outros –, não constituem “escolas” nas quais se deve inscrever ou combates a continuar, mas inspirações, das quais é preciso criticar sem piedade os limites – in primus, sua pouca compreensão das categorias centrais da crítica da economia política de Marx.

  Não se trata, portanto, de ser herdeiro de uma linha que remonta às Luzes, mas de se constituir como varredores em um campo de ruínas.

   É evidente que uma teoria crítica digna deste nome reduzirá a menos do que nada sua atividade de rezar o terço e adorar a repetitiva plêiade midiática de Foucault-Althusser-Negri-Badiou-Zizek-Butler-Deleuze etc.

   Assiste-se desde alguns anos à formação de uma tal teoria forte e radical, no nível internacional. Um papel central na sua elaboração foi realizado pela revista alemã Krisis, incialmente intitulada Marxistische Kritik, fundada em 1987, e por seus principais autores – Robert Kurz, Ernst Lohoff, Roswitha Scholz, Norbert Trenkle, Karl-Heinz Lewed, Claus-Peter Ortlieb –, e pela revista Exit!, fundada em 2004 por Robert Kurz e Roswitha Scholz depois de uma cisão no interior do grupo Krisis. Esta abordagem é conhecida sob o nome de “crítica do valor” (Wertkritik) e “crítica do valor-dissociação” (Wertabspaltungskritik). Quase igualmente importantes são os escritos de Moishe Postone, que foi professor em Chicago, notadamente suaopus magnus, Tempo, trabalho e dominação social, publicada em 1993. A revista mencionará posteriormente convergências parciais entre a crítica do valor e outras abordagens contemporâneas ou mais antigas.

   A crítica do valor, para guardar esta denominação, internacionalizou-se muito ao longo dos anos. Os textos foram traduzidos em uma dúzia de idiomas. Em Portugal e no Brasil, uma grande parte da sua produção está acessível e diferentes grupos de discussão e revistas surgiram, não se limitando às traduções, mas desenvolvendo e aprofundando a abordagem teórica.

   Na França, a difusão da crítica do valor começou com a primeira edição do Manifesto contra o trabalho em 2002. Seguiram-se outras traduções (ainda muito insuficientes em número), assim como a publicação de As aventuras da mercadoria de Anselm Jappe em 2003 (com sua reedição em 2017) e numerosos textos de aprofundamento e divulgação, tais como, em 2014, A grande desvalorização de Ernst Lohoff e Nobert Trenkle, e, em 2017, A sociedade autofágicade Anselm Jappe; em breve serão publicados em francês A substância do capital de Robert Kurz e O sexo do capitalismo de Roswitha Scholz. Acrescenta-se a estas publicações a existência de sites muito ativos, uma associação, as Éditions Crise et Critique, seminários, encontros e conferências. Tempo, trabalho e dominação social de Postone e outros de seus escritos foram igualmente publicados em francês por grandes editores. A crítica do valor faz agora parte da paisagem da crítica anticapitalista na França – apesar das inegáveis dificuldades encontradas na tradução de alguns textos e a ausência de tradução até este momento das principais obras de Robert Kurz. Muitas das teses que a crítica do valor anunciou no seu início, notadamente antes de 2000, e que pareciam então fora de propósito, em primeiro lugar a teoria da crise, foram tão largamente confirmadas pelos eventos que elas são hoje onipresentes nos debates – mas geralmente sem referência à crítica do valor, ou então sob formas muito edulcoradas e banalizadas.

   Era hora, então, de lançar uma revista, uma “verdadeira” revista, ademais, em papel. Pretendendo-se uma passarela entre os mundos germanófono, lusófono e francófono, ela conterá, ao menos inicialmente, uma parte importante de traduções. Somos muito confiantes, contudo, na ampliação do campo de contribuições escritas especificamente para a Jaggernaut.

   Aqui não serão repetidos os pontos essenciais da crítica do valor. Eles podem ser encontrados nas publicações existentes. Referências a elas serão muitas vezes feitas nos artigos da revista. Pode-se também esperar que muitos leitores francófonos já as conheçam! 

Qual será o lugar desta revista no panorama contemporâneo, notadamente na França?

   Desde alguns anos o debate político nos países ocidentais se cristalizou em torno de duas opções: liberalismo versus populismo. As últimas eleições na França, na Itália e nos Estados Unidos exemplificaram essa falsa escolha, até chegar ao nível da caricatura, uma caricatura lúgubre.

   O liberalismo na época da mundialização é relativamente fácil de apreender e descrever. É o capitalismo admitido, seja com amortecedores (versão de “esquerda”) ou sem (versão de direita). Ele não é, entretanto, jamais verdadeiramente antitético ao capitalismo estado-centrado do tipo protecionista e keynesiano, em que a relação entre o Estado e o mercado corresponde, sobretudo, a um período de crise ou de reconstrução, como depois da Segunda Guerra mundial. 

   O populismo é mais difícil de identificar, mais insidioso. Ele está geralmente ancorado sobre um anticapitalismo truncado e mais do que falar de um populismo “de esquerda” ou “de direita” é necessário constatar hoje a emergência de um “populismo transversal”. Esse fenômeno será a tese principal deste primeiro número. As duas opções – liberalismo e populismo – existem cada uma em uma versão de esquerda e em uma versão de direita, com seus graus intermediários. Liberalismo e populismo são até mesmo combináveis, como nos casos de Silvio Berlusconi e ou de Donald Trump. Atualmente os bons cidadãos se vêem intimados a cada instante a escolher entre essas duas opções, não com entusiasmo, mas em nome do “mal menor”. É muito difícil – mas absolutamente necessário! – recusar essa escolha para reconhecer, ao invés disso, a unidade dialética desses dois falsos opostos.

   Em uma das fábulas dos irmãos Grimm, “A lebre e o ouriço”, um ouriço desafia uma lebre para uma corrida de velocidade em um campo. O enganador ouriço, contudo, coloca sua mulher, que se parece exatamente com ele, no outro extremo do campo. O ouriço e a lebre partem e correm entre os sulcos – mas o ouriço logo anda para trás, sem ser visto pela lebre. Esta fica totalmente surpresa de encontrar no final do percurso o ouriço, que diz a ela com um ar triunfante: “Eu já estou aqui!”. A lebre demanda uma nova corrida, mas evidentemente encontra na outra extremidade o ouriço já no lugar. Não se explicando este prodígio, e não duvidando de nada, a lebre renova o desafio, sempre com o mesmo resultado, até a septuagésima quarta corrida, quando, afirma a fábula, a lebre “cai no meio do campo, o sangue saindo da sua boca”.

   Como nesta fábula, o sujeito contemporâneo, quando ele raciocina acerca do mundo em que vive, arrisca-se a morrer esgotado, correndo de uma extremidade a outra do campo, passando sempre do mesmo para o mesmo. Quando ele descobre que a Comissão europeia autorizou mais uma vez os piores pesticidas para agradar a indústria química, ele tem desejo de votar imediatamente para a saída de seu país da União Europeia. Quanto ele vê os soberanistas que defendem esta saída, ele recua e adere ao liberalismo mundializado para evitar os perigos do populismo, da xenofobia e do fechar-se sobre si mesmo. Em seguida, ele corre para o outro lado, aprendendo a nova legislação sobre trabalho proposta pelos governos liberais. E assim por diante. A cada vez ele é simplesmente convidado a escolher o “mal menor”. Todos, exceto os fascistas, mesmo se isso significar Macron. Todas, exceto as elites neoliberais, mesmo se isso significar Frente Nacional para alguns.

   Ele abomina o Tratado de comércio transatlântico “Tafta” e faria de tudo para evitá-lo – e, assim, encontra-se em companhia de Trump e dos neo-protencionistas. Ele quer evitar esta forma de nacionalismo e se encontra com os partidários exagerados da mundialização. Ele desconfia dos “liberais-libertários” e se une à “manif pour tous”.[1] Ele se desvia horrorizado com seu racismo latente e se une com os ultra extremistas do pós-colonialismo conservador dos “Indigènes de la République” e outros “anti-imperialistas” regressivos. Ele critica desde sempre os Estados Unidos, em todos os níveis, e deve constatar a emergência de uma onda anti-americanista de direita. Ele protestava contra Angela Merkel que pretende esmagar a Europa – e a Grécia em particular – sob a bota alemã, e acaba por vê-la como o último baluarte contra Trump, Erdogan e Putin.

   A cada situação, dependendo do que estiver mais próximo do seu coração, ele é tentado a aceitar uma dessas opções; se ela promete somente lhe dar satisfação sobre o ponto em que julga mais importante, dispõe-se a aceitar todo o resto que vem junto. Quem pensa que o racismo representa o maior defeito da sociedade contemporânea, pode, afinal, contentar-se com a ala esquerda do Partido Socialista. Quem acredita que o capitalismo liberal, por abolir a “common decency”, é a raiz do problema, vai dar entrevistas à Causeur. Quem identifica na “islamofobia” o cimento da sociedade opressiva, minimiza ou promove facilmente o antissemitismo, e quem pensa que o antissemitismo é o vício fundador da sociedade moderna pode fustigar todo anticapitalismo como sendo antissemita. Quem quiser curar a sociedade através do decrescimento é tentado a fazer aliança por todos os lados, mesmo com o diabo, desde que ele seja “decrescente”.

Tiques, tiques e tiques, teria dito Lautréamont.

É preciso se resignar a essas escolhas entre Caríbdis e Cila, entre a peste e a cólera? Não existiria o tertium datur?

   A crítica do valor não é um corpus nem um dogma, mas é, sobretudo, um método e uma abordagem em torno de alguns pontos fixos.

   Se existe atualmente uma desconfiança muito grande a respeito do capitalismo contemporâneo, uma inquietude, uma angústia, uma raiva, mas muito pouca clareza, então a batalha de ideias assume um papel central. O descontentamento, o ressentimento e a raiva não têm nada de emancipadores enquanto tais. Eles são “sem qualidades”, eles podem ir nas direções mais diversas. É preciso se opor à barbárie em todas as suas formas, sem justificar nenhuma. Combater a barbárie capitalista com formas que são elas próprias bárbaras é um dos maiores perigos de hoje. Não basta ser “de alguma maneira” “contra o sistema”, para ver depois no que isso dá. O anticapitalismo truncado constitui hoje uma ameaça enorme para a causa da emancipação, e não um “primeiro passo” na boa direção, que só precisaria ser um pouco corrigida. Crer, como fazia o socialdemocrata alemão August Bebel no fim do século XIX, que o “antissemitismo” é “o socialismo dos imbecis”, ao qual é necessário simplesmente indicar o bom caminho, foi um dos erros mais graves do movimento operário clássico.

   É por isso que é urgente denunciar uma extrema-direita renovada que recuperou numerosos temas da esquerda para colocá-los em seu benefício, e também denunciar as pessoas “de esquerda” que caíram na rede desta extrema-direita por ambição, vaidade ou burrice.

   Entretanto, face à extrema-direita, não se encontra um campo “de esquerda”, onde, malgrado divisões e divergências, reinaria uma clareza de fundo sobre as coisas essenciais. É igualmente urgente, mas mais doloroso, trazer à luz o anticapitalismo truncado à esquerda, geralmente mais difícil de identificar, que reduz a crítica social à caça aos especuladores e corrompidos. O termo “anticapitalismo truncado” se aplica plenamente àqueles que continuam a identificar o capitalismo apenas com as “classes dominantes” (ou com outros “dominantes”). Eles são francamente desprezíveis enquanto pretendem até mesmo revalorizar os escritórios dos movimentos revolucionários passados e tagarelam sobre as virtudes de Lênin e de Mao. E não são menos detestáveis quando atualizam seus esquemas, ao molho “pós-colonial”.

   Até os nossos dias, todas as crises foram crises causadas pela penetração progressiva da relação-capital que tinha ainda diante de si um espaço de desenvolvimento histórico tanto interior como exterior. É por esta razão que os movimentos sociais, notadamente a esquerda que se apoiava na luta de classes, geralmente puderam investir positivamente a cada nova fase da acumulação. A esquerda, mesmo sob a bandeira “revolucionária”, bem como sob aquela das “libertações nacionais”, tornava-se, a despeito de si mesma, um dos motores da própria modernização capitalista.

   Quando nenhuma relação positiva com uma suposta nova fase de acumulação é mais possível, o caráter imanente ao sistema do “anticapitalismo truncado”, que era a outra face da relação-capital, encontra-se definitivamente revelado, e seu caráter reacionário também torna-se cada vez mais evidente: todas suas reivindicações são as formas idealistas do passado capitalista. Quando a valorização do valor começa a se esgotar, torna-se impossível avançar reivindicações, levar as lutas ou anunciar as críticas do ponto de vista do trabalho. Estas tornam-se doravante obsoletas no ciclo de lutas, na hora em que a relação toca no seu “limite interno absoluto”. Este contexto, em que a crise do capitalismo provoca ao mesmo tempo uma crise do anticapitalismo, é, logo, o das lutas e análises que, limitadas às retomadas edulcoradas das simplificações subjetivistas e classistas próprias ao marxismo tradicional, não estão à altura da tarefa crítica urgente e vital que se impõe: uma crítica radical das formas de base da vida social capitalista.

   Ao mesmo tempo, a crise nunca foi garantia de uma revolução, e, longe de atrair cada vez mais pessoas para a crítica categorial das formas sociais modernas, ela suscita também um cortejo macabro de inumeráveis ideologias de crise prisioneiras das categorias do modo de produção que se trata de combater. É preciso uma crítica sem concessão das ideologias e do sujeito moderno que não faz mais do que se auto-afirmar, no vazio, sob uma forma histérico-irracional.

   Hoje em dia a nova qualidade da crise, ligada à des-substancialização do valor, que compromete a acumulação real de mais-valor, conduz a esse paradoxo do momento presente: a crise multidimensional do capitalismo paralisa a antiga crítica ao invés de mobilizá-la, e ela a paralisa não lhe deixando senão a possibilidade de sobreviver de maneira sem chão, a partir de uma mitologização ou de uma “nostalgia de esquerda” de uma fase e de um “sujeito” acabado do capitalismo e dos antigos ciclos de luta. Ademais, ela torna doravante visível a obsolescência, ela também programada, de seu velho anticapitalismo truncado, também em crise, e que não tem mais aderência em nada. Sua degenerescência em um simples “anticapitalismo” politicamente transversal se funde agora, nas cabeças como nas ruas, com as ideologias de crise, tais como o populismo ou o nacional-soberanismo. 

   Em um mesmo terreno, esquerda e direita anti-neoliberais de um lado, e neoliberais de esquerda e de direta do outro, apenas opõem diferente e alternativamente um polo do capital (setor privado) ao outro polo do capital encarregado da sua reprodução em conjunto (setor público). O antineoliberalismo em si nunca foi, nem por um segundo, uma forma de anticapitalismo. Ele é, conjuntamente, a face esquerda do capital, e uma forma de oposição perpetuamente derrotada. Ele interiorizou as condições de existência capitalistas e não pode (ou não quer) imaginar outra coisa do que viver nas formas sociais mutilantes do trabalho, do valor, do dinheiro, da mercadoria, da relação assimétrica entre os gêneros, da política, da nação e do Estado. Ele é, para a esquerda, o primeiro obstáculo à possibilidade mesma de uma revolução, o principal motivo ideológico do anticapitalismo truncado contemporâneo que reina nos crânios.

   Uma das tarefas maiores da crítica social é contribuir para ir além do que é hoje em dia a esquerda, para estabelecer uma nova polarização, distinguindo de modo claro um ar realmente anticapitalista de um ar altercapitalista de esquerda do capital. Isto é, ultrapassar a falsa alternativa entre uma esquerda altercapitalista de oposição, movimentista, antineoliberal, e a esquerda de governo, que está agora total e definitivamente apagada, para realizar uma nova inflexão, a fim de tornar nítidas as verdadeiras possibilidades emancipadoras.

   Aspectos diferentes serão aprofundados nesta revista, tomando sempre por base a crítica dos “quatro cavaleiros do apocalipse” moderno: o valor e a mercadoria, o trabalho e o dinheiro. É preciso acrescentar também o Estado. Trata-se de estudar a progressão do colapso da sociedade do valor em suas diferentes manifestações empíricas – econômicas, sociais e outras. Assim, é preciso apreender as formas contemporâneas de adiamento da crise pela produção de capital fictício e suas novas bolhas especulativas. É a ocasião de colocar à prova uma crítica da economia política para o século XXI. É também necessário apresentar um quadro atualizado da transformação da estrutura dos grupos sociais nas sociedades capitalistas contemporâneas, o que nos conduz a confrontar numerosos debates relativos às mudanças na oposição entre capital e trabalho, que dizem respeito ao fim da formação da identidade operária, sobre as novas “lutas sem classes”, mas também sobre o processo geral de desclassificação, quando cada vez mais pessoas caem fora das categorias funcionais, nesta não-classe que cresce dos “resíduos humanos” (Zygmunt Baumann).

   Tratar-se-á de analisar o etnocentrismo, o antissemitismo, o racismo, o fundamentalismo religioso (que nós chamamos religionismo) e a opressão das mulheres, o que não poderá se fazer sem uma dura confrontação com o pós-modernismo. É preciso aqui operar a crítica de todas as formas de exclusão social, sejam elas abertas, indiretas ou subjacentes. Porque os indivíduos enjaulados nas formas do sujeito do trabalho e da mercadoria (que fazem parte das classes médias em particular) não podem mais, doravante, funcionar como tais. Eles são tendencialmente inclinados a defender com unhas e dentes a forma-sujeito moderna, quer dizer, sua pele e seu espaço no seio das relações sociais. Eles o fazem batendo no exército de supérfluos não qualificados, nos empregados com baixos-salários que lhes “roubam” o pouco de trabalho que resta, no migrante, no “assistido”, no inválido ou no estrangeiro, no judeu, no “cigano”, nas mulheres, etc.

   Nós nos interessamos pela subsunção formal e real do indivíduo sob a forma-sujeito moderna, pelo triunfo desta e pela observação de seus desenvolvimentos destruidores e autodestruidores nas formas contemporâneas da subjetividade de mercado, na época da decomposição do capitalismo – narcisismo, ressentimento e ódio, amoque, pulsão de morte e violência autotélica… o que implica um diálogo com a psicanálise.

   Nós nos propomos igualmente a fazer com que se tome consciência do lugar existente entre os efeitos destrutivos da produção capitalista de riqueza material e a forma capitalista de relações sociais, notadamente colocando em evidência a relação do capitalismo com esta outra grande forma de fetichismo que é a tecnologia, e, portanto, a “mega-máquina”. Isto conduz a uma confrontação com o pensamento ecológico e seus limites, notadamente relacionado com o debate contemporâneo sobre o “antropoceno” e o “capitaloceno”. Nós abordaremos a questão da relação do capital com o corpo, a colonização dos corpos pela mercadoria, as ideologias do corpo, o corpo vivo do animal na criação e alimentação; nossa reflexão nos conduzirá assim a uma crítica da incorporação do fetichismo no vivo.

   Nós examinaremos os méritos e os limites de outras formas de pensamento crítico, e a história do pensamento e da filosofia em geral; a história do capitalismo, seu nascimento, suas diferentes etapas, o papel do dinheiro notadamente; a inclusão – ou não – do fetichismo da mercadoria na história dos fetichismos tout court, o que conduz a um diálogo com a antropologia cultural e a história das ideias. É exatamente uma teoria revolucionária que se trata de reconstruir até mesmo nas suas fundações, aprofundando a superação do tratamento imanente das contradições no seio do sistema capitalista-patriarcal.

   Enquanto nossa revista é encaminhada para a gráfica, mais de um milhão de jovens manifestam-se no mundo inteiro para protestar contra a ausência de qualquer medida eficaz para evitar a catástrofe climática. Na França, os manifestantes geralmente se misturaram aos “gilets jaunes”. Nós devemos reservar no próximo número um comentário mais detalhado desses novos movimentos sociais; mas parece já altamente provável que a tentativa de puxar os freios de emergência para impedir um desastre final, que tornaria inútil qualquer outro discurso, será o ponto de convergência de todas as contestações da ordem estabelecida.

   Jaggernaut não é uma publicação “aberta”, mas uma revista que escolheu seu campo. Contudo, isto não impede que ela possa acolher contribuições contendo críticas inteligentes endereçadas às suas posições.

De uma metáfora a outra

   Por que o nome Jaggernaut? É, na origem, o nome do carro de procissão do deus hindu Vishnu. “O culto de Jaggernaut, escreve Marx, compreendia um ritual muito pomposo e gerava um desencadeamento do fanatismo que se manifestava nos suicídios e mutilações voluntárias. Nos dias de grandes festas religiosas, os fiéis se jogavam sob as rodas do carro portando a estátua de Vishnu-Jaggernaut”. Uma metáfora que Marx vai empregar várias vezes, inclusive em O Capital, para apontar a dimensão sacrificial do capitalismo: “Eles esquecem que no lugar do homem somente, o que é hoje o chefe de família, sua mulher e talvez 3 ou 4 filhos são jogados sob as rodas do Jaggernaut capitalista”.

   Com certeza a frase de Marx capta a época em que o pai era o “chefe da família”, e também a procissão com o Jaggernaut poderia ser, ao menos em parte, uma projeção dos ocidentais, ou um engano [méprise]. Como os exploradores do século XVI, que acreditavam descobrir nos novos mundos os lugares reais das figuras de suas mitologias e as encarnações de seus próprios medos, a figura ocidental do Jaggeranut é a ideia de uma barbárie como fantasma moderno, como projeção de alguma coisa da sociedade moderna, nos ensinando mais sobre esta do que sobre a sociedade antiga. Isso não reduz em nada a potência da metáfora. Afinal, quando falamos da “Torre de Babel”, pouco nos importa saber o que verdadeiramente se passou na Mesopotâmia há 5000 anos…

   Essa metáfora significa, para a crítica da economia política, a passagem do paradigma focalizado na exploração para o paradigma do fetichismo. Ela implica notadamente a ruptura com a metáfora problemática do vampiro, utilizada desde o século XIX, para descrever o capitalismo, servindo hoje para designar as finanças que vampirizam a “economia real”. O vampiro, representante do dinheiro (os capitalistas), está supostamente sugando, enquanto exterioridade, o trabalho vivo, considerado como o concreto naturalizado, que, por sua vez, é identificado ao trabalho, às forças produtivas, à indústria, ao valor, à comunidade de sangue ou cultural (a nação). Esta metáfora, característica do anticapitalismo truncado, não tem por objeto senão insistir na inocência da vítima e no lado extranatural do carrasco. Ela centra sua representação truncada do capitalismo nas classes sociais, que constituem uma categoria em realidade derivada da relação-fetiche, mas que é tomada erroneamente no marxismo tradicional e no anticapitalismo truncado como referindo-se a sujeitos desprovidos de a priori. Subsume-se, portanto, o conjunto das categorias reprodutivas do capital à razão derradeira de uma subjetividade sociológica vampiresca da riqueza abstrata capitalista (o valor) e sua produção (o trabalho, a indústria). Esta metáfora é, além disso, imediatamente ambígua, pois ela pode ser aplicada a qualquer conteúdo. Ela pode, por exemplo, servir para designar as nações brancas que vampirizam as nações negras ou os imigrantes que vampirizam a sociedade de acolhida. Teoricamente, focaliza-se na ideia de que o capitalismo seria apenas um simples sistema de distribuição da riqueza social, cujas condições de produção não deveriam ser interrogadas. Em nome do polo naturalizado (o trabalho, a “economia real”, a nação, etc.) que produz esta riqueza, as relações de desigualdades de distribuição tornam-se objeto exclusivo de uma crítica social rapidamente degradada à crítica moral, baseada na denúncia da “avidez” de alguns. Ela passa ao largo do essencial e dá muito espaço às reivindicações que se limitam à esfera do consumo e aos problemas de justiça distributiva ou de reconhecimento.

   Ao inverso, a Jaggernaut simboliza o “sujeito automático” (Marx) do valor que esmaga tudo na sua passagem, uma metáfora da “inversão real” da vida social, que constitui o coração das trevas da vida sob o capitalismo. É a metáfora de um modo de constituição da alienação moderna, em que toda atividade social toma realmente a forma de seu contrário, o valor, e fica presa, desta maneira, em uma verdadeira ‘‘falsidade ontológica”. Nesta inversão, uma coisa sensível, o corpo de uma mercadoria – o valor de uso –, representa uma coisa sobrenatural, “suprassensível”, puramente social: o valor; o lado concreto do trabalho efetuado torna-se “a forma fenomênica de seu contrário, do trabalho humano abstrato” (Marx); a dimensão individual da atividade é a forma fenomênica do trabalho social, torna-se indiferenciada e intercambiável. Jaggernaut é o “mundo de cabeça para baixo” no qual as relações coisificadas constituem o processo de valorização, comandando (sob a forma mercadoria, o dinheiro e o capital) os indivíduos e se erguendo diante deles como divindades bárbaras que exigem novos sacrifícios humanos. Jaggernaut é esta delirante estruturação alienada das relações sociais, em que a lógica objetiva da mercadoria, da moeda e do capital constitui para os indivíduos uma forma de dominação moderna específica, impessoal, abstrata (uma “dominação sem sujeito”, diz Kurz), que empurra profundamente as pontas afiadas de injunções fetichistas nas suas carnes. Jaggernaut é o reino de uma metafísica real em que “é o processo de produção que controla os homens, e não o inverso” (Marx). Uma realidade social invertida em que o verdadeiro sujeito na produção capitalista não é constituído nem pelas “classes dominantes”, nem pelo proletariado, mas pelo próprio valor, que reduz os atores humanos a seus executores.

   Assim como os fanáticos que puxavam o carro de procissão de Vishnu, que deveria esmagá-los cruelmente sob suas rodas, os indivíduos sob o capitalismo estão subsumidos a relações econômicas que eles constituem, para não serem mais do que personificações transitórias sob a forma de diferentes “máscaras de personagem”, que não seria senão outro nome para suas vidas mutiladas. Os indivíduos, enquanto seus “agentes”, seus “guardas”, seus “oficiais e suboficiais”, seus “funcionários” e seus “fanáticos”, diz Marx, puxam o “Jaggernaut capitalista” tanto quanto este os tritura. “Eles não sabem, mas o fazem”. É uma relação entre os indivíduos, é um vínculo social alienado, uma maneira que nós temos de nos relacionar com os outros sem sabermos. Nós devemos reconhecer esta verdade: essa relação somos nós. “E nós permaneceremos assim tanto tempo quanto não formos outra coisa, enquanto nós não criarmos instituições que estabeleçam uma verdadeira comunidade e uma verdadeira sociedade humana” (Gustav Landauer). Jaggernaut é esta relação social fetichizada que é preciso derrubar, e que será destruída ao se adentrar em outras relações sociais.

Apresentação do número

   Jaggernaut proporá um número anual composto de um dossiê temático e uma rubrica “Focus”, em que se poderá ler artigos e entrevistas que a cada vez abordarão ângulos diferentes.

   Um espectro assombra a política contemporânea depois da crise mundial de 2008: o espectro do populismo global como sequência ideológica do capitalismo de crise. Todavia, o termo populismo permanece particularmente vago e confuso, e quando ele é reivindicado, o campo transversal do populismo, que conhece uma versão de esquerda e uma versão de direita (quando, em certas circunstâncias, estas não se fusionam), permanece um meio antagônico onde o povo está em disputa. Para tanto, o que é preciso compreender como “populismo produtivo” denuncia os males do capitalismo sem jamais produzir uma análise de suas causasestruturais, substituindo-os pela denúncia dos complôs organizados por minorias gananciosas: a oposição entre “aqueles de baixo” e “aqueles de cima” torna-se a primeira figura de compreensão dos males do capitalismo e o principal motivo de oposição. Esse primeiro número compreende um dossiê de quatro textos relativos a certas dimensões centrais desse novo ciclo de lutas sociais e de subjetivação dos sofrimentos sociais apreendidos sob os traços do “populismo produtivo”. Mais ainda, a relação entre o populismo produtivo e o anticapitalismo truncado é o tempo todo interrogada e criticada. Pois o anticapitalismo truncado, que identifica o capitalismo com a dominação exercida por uma pequena camada da população – os proprietários dos meios de produção – sobre uma maioria de trabalhadores que não pertencem senão exteriormente, e sob constrangimentos, a esse sistema, não percebe que o capitalismo é uma relação social, em que todo mundo participa, mesmo se com papéis e retribuições muito diferentes. Os artigos foram reunidos e redigidos antes da aparição na França do movimento “Gilets jaunes”. Eles não pretendem ser uma análise detalhada desse movimento, que seria impossível de reduzir a uma tendência unitária e homogênea. Se esse movimento designa sofrimentos radicais, que pedem uma transformação radical, algumas de suas traduções podem ser, entretanto, aprendidas através de análises críticas do “populismo produtivo” propostas neste dossiê; retornaremos a esse movimento social mais especificamente no próximo número.

   Em Luta sem classes. Por que o proletariado não renasce no processo capitalista de crise, artigo publicado em 2006 na Krisis, Norbert Trenkle questiona a pertinência do conceito de “luta de classes” no contexto da sociedade de mercado pós-moderna. Ele prossegue à desmitologização da luta de classes, iniciada com a publicação de “O fetiche da luta de classes: Teses a respeito da desmistificação do marxismo” de Kurz e Lohoff, publicado em 1989, em que se critica a tendência marxista tradicional de confundir o conceito empírico e derivado de “classe” com uma categoria de base do capitalismo. A luta de classes seria, assim, apenas um momento no desenvolvimento do capitalismo global, que se insere na imanência do processo de valorização, sem superá-lo no sentido estrito. Em 2006, Trenkle indica que a polarização social crescente parece autorizar o “retorno” do conceito de “luta de classes”, mas que esta aparência deve ser desmistificada. Mais do que um retorno à “luta de classes”, assistir-se-ia, com efeito, sobretudo a um processo geral de desclassificação:[2]

– Os indivíduos interiorizariam a oposição entre gestão e produção, sendo alocados sobretudo em funções de vigilância e controle;

– A exigência de flexibilidade interditaria cada vez mais a identificação com uma função determinada;

– As hierarquias entre trabalhadores se intensificariam;

– No processo de crise, uma massa crescente de “supérfluos” se desenvolveria;

Essas tendências pós-modernas fazem com que seja cada vez mais ilusório determinar uma “classe de trabalhadores”, seja ela “em si” (determinada pelas condições objetivas), seja ela “para si” (consciente de si própria). Trenkle critica os marxistas tradicionais de hoje que, para tentar salvar o conceito de “classe de trabalhadores”, produzem pensamentos confusos: assim, Frank Deppe, um marxista tradicional, passa sem transição da noção de trabalhador produtivo (produtor de mais-valor) à de trabalhador assalariado, para afirmar a existência de uma classe revolucionária, susceptível de transcender a “fragmentação do proletariado”. Segundo Trenkle, a luta de classes pôde desempenhar um papel determinante historicamente, enquanto o proletariado desenvolvia práticas e uma consciência coletiva ampla, em particular quando da fase ascendente do capitalismo industrial. Contudo, trata-se também de desmitologizar esta luta de classes histórica, lembrando que ela não constitui um questionamento radical das categorias de base do capitalismo. Além disso, esta forma histórica derivada não pode ser realizada sobre a base da realidade social contemporânea. Lutas emancipadoras existem, segundo Trenkle (por exemplo, certos movimentos autônomos dos Piqueteros), mas não se trata mais de pensá-las com o esquema antigo da luta de classes.

   Populistas e parasitas. Sobre a lógica dos populistas produtivos é um artigo publicado em 2015 na coletânea dirigida por John Abromeit Transformations of Populism in Europe and the Americas, pela editora Bloomsbury Academic, em Londres. O ensaio deste historiador americano, próximo dos trabalhos de Moishe Postone, aborda as dimensões “produtivas” do discurso populista. Ele concentra-se, em particular, na maneira que o “povo” foi definido como “produtor”, e foi oposto ao dinheiro e à finança, apreendidos como os inimigos “parasitas” legítimos. Ele explora de início os exemplos da Grã-Bretanha e da Alemanha, que ilustram bem o espaço da moeda transnacional nesses discursos. Loeffle sustenta que esta moeda, por sua vez, ajuda a precisar os tipos de abordagens teóricas que seriam necessárias para explicar por que os populismos produtivos tornaram-se significativos e convincentes historicamente. Para começar a desenvolver tal abordagem, ele se volta, inicialmente, para as recentes trocas sobre populismo entre Ernesto Laclau e Slavoj Žižek. Para Loeffler, as intervenções de Laclau foram de uma importância fundamental para problematizar o reducionismo materialista que marcava as abordagens precedentes sobre o populismo. No entanto, Loeffler defende igualmente que esta troca traz à luz certos limites da análise de Laclau, em particular no que concerne ao desenvolvimento de abordagens críticas do populismo e para se colocar em evidência as condições históricas de emergência de discursos político-econômicos populistas. Loeffler começa então a esboçar uma abordagem mais adequada sobre os discursos do populismo produtivo. Ele se apoia em uma leitura da crítica marxiana da economia política que se afasta do reducionismo materialista, igualmente fundado nas classes, do marxismo tradicional. Ele sustenta que a melhor maneira de compreender a aparência da verossimilhança histórica generalizada do discurso populista sobre as finanças é de restabelecer sua relação com as formas de práticas sociais historicamente determinadas que são constitutivas da sociedade capitalista, e que têm a tendência de aparecer de tal maneira que obscurecem a dinâmica fundamental do capitalismo.

   Em Cães do povo e do capital. Teses sobre os populismos produtivos de construção e de crise na dinâmica do capitalismo, Clément Homs esforça-se para mostrar que a passagem, nas últimas décadas, da luta de classes para uma luta sem classes, que empresta os traços do populismo transversal, assume contra-intuitivamente tanto o renascimento do marxismo tradicional já desvalorizado quanto a análise democrata burguesa. O autor busca mostrar, então, que o populismo produtivo constituído em torno da oposição binária entre povo, identificado com os “produtores” virtuosos, e a elite, retratada como “parasita”, porque improdutiva, é não somente um modo de subjetivação recorrente ao longo de toda a história do capitalismo, mas revela igualmente uma força social real e específica às formas de práticas sociais e de subjetivação ligadas ao modo de produção capitalista. Considerando o caráter inoperante das compreensões do populismo em termos simplesmente sociológicos, de análise de classe, de crítica do “interclassismo”, da demagogia ou das “reivindicações do monopólio moral da representação do povo”, assim como em termos dos conteúdos discursivos, ao molho culturalista pós-moderno, o autor mostra que este gênero de produto ideológico ancora-se, no plano da economia psíquica do indivíduo sob o capitalismo, na sua subsunção real à forma-sujeito moderna, através da integração repressiva mediatizada pela constituição dos mega-sujeitos coletivos (povo, nação, classes, “raças”), que acompanham a ascensão e a decomposição lenta da civilização capitalista. Tendo em conta a subjetivação de uma crítica fetichizada, feita do ponto de vista do trabalho, que sempre está fundada na maneira com que se evidencia fenomenalmente a essência do capitalismo, trata-se desde então de produzir no conceito a lógica objetiva desta nova subjetivação populista transversal, no âmbito de uma vasta história da constituição desse sujeito moderno agora em crise, assim como da emergência, subjacente desde a crise de 2008, de um anticapitalismo truncado transversal. Uma teoria crítica do populismo produtivo fundada em níveis de reflexão da crítica da forma-sujeito moderna, desenvolvida desde o começo dos anos 2000 pela crítica do valor-dissociação, poderia produzir uma teoria das funções e das determinações mutáveis desse super-herói coletivo que é o “povo”, tendo em conta, de um lado, o nascimento das primeiras formações sociais capitalistas e o papel afirmativo-apologético que desempenha esse princípio pseudo-concreto na constituição inicial do sujeito individual moderno assim como da esfera político-estatal sob o capitalismo, e, de outro lado, a fase de decomposição do capitalismo, a dimensão fundamentalmente dinâmica e doravante autodestrutiva desta mesma subsunção real do indivíduo à forma-sujeito. Nosso mega-sujeito vem agora preencher outras funções, constituindo o fundamento de uma ideologia de crise que reafirma de maneira histérico-irracional o sujeito moderno, o qual agora corre no vazio. Em razão desses papeis mutáveis, o autor define dois tipos de agregação do populismo. O primeiro, um populismo produtivo de construção, em geral voltado contra o antigo regime na fase de ascensão do capitalismo, em que o povo é ao mesmo tempo o resultado homogeneizado sob o princípio da abstração, da dissolução-rearranjo das relações sociais não-modernas, e o pressuposto daqueles que querem afirmar e fazer advir a nova sociedade capitalista. O segundo, um populismo produtivo de crise, em que a sociedade civil burguesa, quer dizer, o povo dos “produtores” e o Estado dos “produtores”, virá, na fase de decomposição do capitalismo, a se automobilizar, para um último salvamento, mas desta vez para fazer face ao contexto global de crise no qual o povo e o Estado dos “produtores” querem, finalmente, melhor se afirmar. A oposição contemporânea entre “populistas” transversais e “antipopulistas” democratas burgueses revela, enfim, esta forma de confronto interno à sociedade capitalista em que há expressão destes dois papéis desempenhados por idênticos motivos ideológicos, um estando referido à construção do capitalismo durante sua fase ascendente, enquanto o outro constitui uma ideologia de crise das sociedades capitalistas durante sua fase de decomposição. A este título, o autor apreende a dicotomia contemporânea dos populistas e dos antipopulistas como uma oposição intracapitalista entre as diferentes raças de cachorros do povo e do capital.

   Em Populismo econômico, neonacionalismo e soberanismo de crise na era do esgotamento do capital fictício, William Loveluck descreve formas de interpretações da economia e suas dinâmicas partindo do que ele qualifica de “populismo econômico”. Essas interpretações, que tomam formas distintas no âmbito do tabuleiro político, repousam totalmente sobre categorias interpretativas similares que propõem a ideia de que certas categorias de indivíduos (notadamente a oligarquia financeira e/ou tecnocrata nacional e/ou europeia) favorecem a orientação das riquezas e das dinâmicas do tecido econômico em seu favor e açambarcam a orientação política do Estado em seu próprio benefício, em detrimento dos indivíduos mais modestos, compreendidos como criadores de um “valor” mais legítimo e “criativo”, ou seja, em detrimento do tecido econômico “produtivo” que combina trabalhadores e capitalistas, percebidos como criadores de valores “concretos” em face da finança. Depois de ter caracterizado as especificidades da vida econômica capitalista e precisar como a reprodução do Estado moderno e da esfera pública é consubstancial à economia e dependente de seu desenvolvimento, o autor descreve as injunções econômicas que se impõem ao Estado e à classe política no momento em que a própria economia depende da expansão exponencial de títulos financeiros (em período de crise estrutural do próprio capitalismo). Os neo-nacionalistas e os “soberanistas de crise” são, dessa maneira, ideólogos que tomam como certa a continuidade da vida capitalista, sem apreender que o Estado encontra-se atualmente sob o jugo de novos constrangimentos, e deve tomar a forma e os dispositivos adequados a esta nova configuração de um capitalismo estruturalmente financeirizado e estruturalmente internacional. O autor convida a compreender por que as mesmas questões e respostas, com poucas diferenças, são formuladas da extrema-esquerda à extrema-direita no campo das análises econômicas, e a compreender como o populismo produtivo transversal se arma de maneira subjacente numa forma de consciência reificada e fetichizada, o que atravessa todos os sujeitos, todo o espectro político e todas as classes. A maior parte das análises, de esquerda como de direita, não apreendem as especificidades do Estado moderno e sua consubstancialidade à economia, mas apreendem de maneira não-adequada o que eles qualificam de “capitalismo financeiro”. Essas análises não permitem explicar por que o Estado favoriza estruturalmente a expansão das máquinas financeiras e liquida os componentes do Estado social, e, enfim, não permitem apreender as causas da crise de 2008 nem as reformulações do capitalismo que se seguiram. A forma de consciência fetichizada produz uma forma de anticapitalismo transversal (um anticapitalismo truncado, até mesmo regressivo e perigoso), que vem “armar” uma afirmação do “concreto”, sob a forma do “povo produtivo”, diante dos “vilões da oligarquia financeira”. O autor, apoiando-se em parte na teses de Ernst Lohoff e Nobert Trenkle concernentes à financeirização da economia, traz à tona uma crítica e uma contra-história do capitalismo nessas últimas décadas, na contramão da visão de extrema-esquerda à extrema-direita, antes de mostrar como as interpretações truncadas desta dinâmica capitalista, geralmente apreendidas como uma despossessão dos mais pobres pelos mais ricos, sem se colocar em questão o próprio capitalismo, alimentam diversos populismos econômicos que tomam a forma de soberanismo monetário, euroceticismo, às vezes em articulação com discursos políticos particularmente regressivos, antissemitas e racistas, notadamente.

   O patriarcado produtor de mercadorias. Teses sobre “capitalismo e relação de gênero” é um artigo publicado, em 2009, na compilação Les règles du jeu de la violence, pela editora Transcript, em Bielefeld. Roswitha Scholz reexpõe a teoria crítica do valor-dissociação que foi tanto uma ampliação quanto uma colocação em questão fundamental da Wertkritik“tradicional”. Esta última tinha a tendência de dissociar ela mesma uma parte da realidade social que não era compreensível com as ferramentas apenas da reformulação da crítica marxiana da economia política. Roswitha Scholz rejeita tanto as visões feministas desconstrutivistas que partem da ideia de uma “produção cultural da masculinidade e da feminidade”, antes de toda distribuição sexuada das atividades, quanto a abordagem marxista tradicional que parte da ideia de que as significações culturais secundárias seriam enxertadas sobre uma divisão sexual do trabalho prévia. “Ao contrário, os fatores materiais, culturais-simbólicos e sócio-psicológicos devem ser posicionados sobre o mesmo plano de pertinência”, e devem ser compreendidos de maneira dialética. O trabalho abstrato e as atividades domésticas condicionam-se mutuamente e um não pode ser deduzido do outro. A teoria do valor-dissociação defende-se de proceder segundo a lógica da identidade que tem a tendência a tudo subsumir sob apenas um princípio. Quer se trate das diferentes esferas, das formas de dominação, mas também de regiões e culturas da sociedade capitalista mundializada, é sempre necessário dar espaço às diferenças, sem, por sua vez, absolutizá-las. Além disso, a autora revisa os trabalhos críticos dos quais parte ela reclama: de um lado a teoria crítica (sobretudo Adorno) e, de outro, a crítica do valor. Uma nova crítica radical deve conter tanto um meta-conceito da modernidade quanto ter em conta as mudanças fundamentais que sobrevieram desde os anos 1990 (desde a queda do muro).

   Em Um conceito difícil. O fetichismo em Marx, Anselm Jappe apresenta um dos conceitos de Marx mais difíceis de se apreender. Um conceito que se encontra no centro da crítica marxiana da economia política e que paradoxalmente permanece largamente incompreendido na tradição marxista. Depois de dar a palavra ao próprio Marx graças a numerosas citações, o autor se volta a diversas questões, tais como a relação entre o jovem Marx da “alienação” e o Marx da maturidade centrado no “fetichismo”, ou sobre a relação do capítulo 1 do primeiro volume doCapital com o capítulo “A forma trinitária” no terceiro volume, mostrando que esses dois desenvolvimentos maiores acerca do fetichismo correspondem um à essência e outro à forma fenomênica. O autor apresenta, em uma segunda parte, uma história do conceito de fetichismo através de leituras diversas e divergentes que foram feitas. As primeiras gerações de marxistas não lhe atribuíam quase nenhuma importância. A partir dos anos 1920, György Lukács e Isaac Rubin começaram a retomá-lo. O autor mostra como o fetichismo é interpretado de Karl Korsch, Evgeny Pachukanis, Adorno, Walter Benjamin, Roman Rosdolsky, Fredy Perlman à Moishe Postone, KrisisExit! e Robert Kurz, passando por Guy Debord, Lucio Colletti, Hans-Jürgen Krahl, Hans-Georg Backhaus e Michael Heinrich. Ele insiste sobre a eclosão tardia do conceito. O autor mostra assim que, após a Segunda Guerra Mundial, o conceito de “alienação” torna-se central no debate marxista, e certos autores afirmam uma continuidade entre esse conceito do jovem Marx e o fetichismo evocado nas suas obras tardias. Mas o fetichismo é, então, quase sempre concebido como uma “mistificação”, como um “véu” que se estende sobre a realidade da exploração capitalista. O autor mostra, em seguida, que apenas a partir dos anos 1970 se desenvolve uma interpretação que liga o fetichismo aos conceitos de valor e trabalho abstrato. Esta interpretação o considera como uma inversão real da vida social, e não como um simples fenômeno da consciência, e atribui a ele um papel central no “uso” que se pode fazer hoje de Marx. Em uma terceira parte, o autor insiste a respeito das extensões às vezes problemáticas do conceito, mesmo fora do campo marxista, que se referem em geral, e muitas vezes de maneira bastante associativa, ao imaginário ligado aos bens de consumo: é o fetichismo como adoração das mercadorias. Outra abordagem propõe-se a analisar a continuidade eventual entre o fetichismo da mercadoria e as formas mais antigas – religiosas – do fetichismo, mas corre o risco de perder de vista a especificidade do fetichismo moderno.

   Sob o título Teoria e prática. Crítica da visão truncada de prática e da teoria, nós reunimos a tradução de três seções extraídas de um artigo maior de Robert Kurz, Cinza é a árvore dourada da vida e verde a teoria. O problema da práxis como tema recorrente da crítica social truncada e a história da esquerda, publicado na Exit! em 2007. Kurz critica uma interpretação largamente respaldada da XIª tese sobre Feuerbach, onde Marx formula que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-lo”.  Ele mostra que a “transformação do mundo” não tem nada a ver com uma relação teoria-prática tomada em um sentido superficialmente “ativista”, mas antes com uma concepção radicalmente transformada da reflexão teórica. Kurz, prolongando de maneira determinante as reflexões de Marx e indo além até mesmo de certa deficiência da tese sobre Feuerbach, funda a distinção entre o caráter interpretativo de toda teoria burguesa e a teoria crítica, ao considerar a questão do ponto de vista da crítica do valor-dissociação. A fim de realçar a diferença determinante entre crítica e afirmação, o autor considera, de cima a baixo, a dialética imanente da relação teoria/prática na própria sociedade capitalista. Kurz aborda numerosas questões, tais como o problema da definição e da formação da ideologia e dos modelos de interpretação no seio da forma de pensar preestabelecida, a relação entre crítica categorial e crítica ideológica, e a compreensão de uma prática qualificada como de “segunda ordem”, que possa ir além da “contra-prática” imanente que não faz mais do que reproduzir a ordem existente. Uma prática revolucionária que, pela primeira vez, quebrando de maneira consciente o agir imanente sob o capitalismo, possa nos tornar “arquitetos” de nossas próprias condições de vida.

   Em Apoteose e universalismo. Islamismo como fundamentalismo da forma social moderna, Karl-Heinz Lewed (grupo Krisis) mostra que, neste início do século XXI, a confrontação dos islamismos com seus adversários ocidentais declarados não coloca face a face duas culturas por essência estrangeiras, como pensam tanto os adeptos do choque de civilizações como aqueles dos estudos pós-coloniais, mas antes duas formas de assimilação da mundialização capitalista em crise, duas maneiras de compreender e de reagir que repousam ambas na mesma base, constituída, de um lado, pela forma moderna das relações sociais que implicam produção de mercadorias, trabalho abstrato, direito, etc., e de outro, pela forma-sujeito correspondente. Lewed volta ao contexto histórico real de surgimento do integrismo islâmico moderno e o analisa como herdeiro da “vontade do povo” depois do fracasso da modernização tardia nos países de influência islâmica. Segundo sua análise, o ponto de vista defendido pelo fundamentalismo islâmico por oposição aos interesses privados, é o interesse geral sob a forma da lei e do direito, mas não mais ancorado no alicerce da forma-nação, mas na instância metafísica da soberania divina. Esta inflexão reflete a erosão das bases do Estado nacional, que não está mais em condições de arbitrar todos os interesses privados e zelar pelo funcionamento geral da máquina da economia. O voo na esfera transcendental revela não somente o caráter metafísico da forma da lei, mas também a crise fundamental desta forma. 

   No artigo Nietzsche em questão. Por que Nietzsche não é solúvel em uma crítica emancipadora da modernidade, de Benoit Bohy-Bunel, trata-se de questionar a crítica nietzscheana do “niilismo”, da abstração e dos “nivelamentos”, que seriam induzidos pela modernidade. Assevera-se que a crítica nietzschiana não deixa de lembrar certas perspectivas próprias a um anticapitalismo truncado específico, e assim ao antissemitismo estrutural que Postone definiu nas suas pesquisas. Ao mesmo tempo, uma certa revalorização nietzscheana de uma “qualidade” essencialista que teria sido “perdida” (opondo-se à abstração da modernidade) pode induzir a certas derivas patriarcais sob a pluma do autor alemão. Através da crítica desses elementos regressivos presentes no pensamento nietzscheano, trata-se igualmente de questionar as reapropriações pós ou antimodernas contemporâneas desse pensamento.

   O artigo O novo tempo do mundo de Paulo Arantes, de Fred Lyra, é uma resenha do livro, publicado em 2014 no Brasil, desse filósofo brasileiro desconhecido no espaço francófono e geralmente em diálogo tanto com a crítica do valor quanto com a “Escola de Frankfurt”. Nesta obra Arantes tenta fazer um diagnóstico da nossa época tendo em conta o colapso do sistema capitalista e a ausência de perspectivas positivas. Uma época que pode ser conhecida, segundo suas palavras, como “tempo de exceção” vivido como um “colapso administrado”. Essa constatação é acompanhada de um programa de pesquisa teórica radical que leva em conta ao mesmo tempo a perspectiva brasileira que é a sua, a saber, ex-colônia em decomposição, e a totalidade negativa do sistema capitalista. Paulo Arantes, que é um dos pensadores mais originais e rigorosos de nossa época, nos propõe uma reflexão que se volta para todos os públicos, e ao público francófono em particular, que gostaria de levar a sério a necessária atualização crítica a fim de fazer face aos tempos sombrios que se anunciam.

Tradução por Pedro Resende.  


[1] Coletivo formado em 2012 de associações que se manifestam contra a lei que permite casamento de casais de pessoas do mesmo sexo na França

[2] No sentido tanto de “retirar o caráter de classe” quanto no de rebaixamento ou declínio social. N.T.

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* Torne a Teoria Crítica ótima novamente” (tradução livre)

SEM MEDO DE SE EMANCIPAR

O Crítica Radical recebeu um convite irrecusável.

No dia 22 de agosto, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, abre-se uma exposição especial sobre a construção da história brasileira.

Trata-se da mostra Meta-Arquivo cuja programação contém a trajetória do Crítica com seus desafios atuais.

É um momento extraordinário para com você e demais amigos e amigas daqui, do Brasil e do mundo ampliarmos os horizontes da crítica categorial ao capitalismo.

Um encontro para fazer brotar o mais amplo e inusitado debate sobre como vamos superar a crise do limite do sistema, com suas expressões políticas, aqui e no mundo, alçando o voo emancipatório.

Eis, portanto, a oportunidade histórica para que o sonho que sonhamos juntos vire realidade.

Para construirmos essa façanha imperdível, superando os obstáculos financeiros da nossa jornada, estamos promovendo o Sorteio da Emancipação.

É o sorteio de um carro 0 Km, da Renault, Kwid, 4 portas, direção hidráulica e ar condicionado, por apenas R$ 10 reais.

Colabore! Participe! A hora é agora para com você elaborarmos e construirmos o projeto do Sítio Brotando a Emancipação.

Para estruturarmos uma comunicação à altura das respostas para o século XXI.

Para liquidarmos empréstimos contraídos e realizarmos o Projeto da Kombi Itinerante.

Para participarmos de um especial momento histórico na atualidade avançando na construção do novo movimento social transnacional emancipatório.

Venha para este novo pensar e este novo fazer históricos para suplantarmos o moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias.

Vamos sair dessa barbárie, dessa infelicidade geral.

Vamos realizar em São Paulo um encontro para a Emancipação Humana e Ambiental.

Vamos à luta.