EM MEMÓRIA DE ROBERT KURZ. DEPOIMENTO DO PROFESSOR PETER NAUMANN, SEU MAIOR INTÉRPRETE –

Peter Naumann*

Com muito gosto atendo ao pedido de Jorge Paiva para dar meu depoimento sobre Robert Kurz.

Conheci-o na nOite de 15 de abril de 1993, quando ele estreou no Brasil a convite do Instituto Goethe de São Paulo. O motivo imediato desse evento foi o lançamento da tradução brasileira de “O colapso da modernização”, publicado pela Editora Paz e Terra por sugestão de Roberto Schwarz.

Dividi a cabine com meu mais qualificado colega e amigo George Bernard Sperber, infelizmente aposentado há vários anos. No auditório do Instituto Goethe na Rua Lisboa 974 apareceu um homem modesto e ao mesmo tempo seguro de si. Foi apresentado pelo moderador, Roberto Schwarz, proferiu uma conferência e enfrentou depois os comentários críticos dos economistas convidados, entre eles Luiz Carlos Bresser-Pereira e Persio Arida.

Quase duas semanas depois fui intérprete de Robert Kurz em uma palestra sobre “O futuro do liberalismo e do socialismo”, proferida no Instituto Goethe de Porto Alegre. Em setembro de 1994 ele retornou ao Brasil, a convite do Instituto Goethe, desta feita na companhia de outro amigo, o famoso cientista político e economista Elmar Altvater, também já falecido. Fui intérprete deles em Santa Cruz do Sul, Porto Alegre, Curitiba e São Paulo.

Servi de intérprete ao Robert Kurz em todas as visitas posteriores ao Brasil, traduzi dois artigos, publicados em revistas acadêmicas e republicados na coletânea “Os últimos combates”, que reúne grande parte dos seus artigos publicados na “Folha de São Paulo”.

Duas vezes estive com ele em Fortaleza, em eventos organizados pelo grupo “Crítica radical”.

Em 23 de janeiro de 2005 Robert Kurz proferiu uma palestra em um evento organizado durante o 5º Fórum Social pelo Serviço Pastoral dos Migrantes. Dias depois organizei um jantar em minha casa para ele e o Prof. Dieter Heidemann (USP), seu amigo.

Quando fui contratado em início de 1993 para ser intérprete de Robert Kurz, de quem nunca ouvira falar, procurei qualificar-me. Com ajuda de um comandante da VARIG, amigo, consegui importar em poucos dias o primeiro livro, que o tornou conhecido na Alemanha e também no Brasil, “O colapso da modernização”. A primeira impressão foi ambivalente: fiquei muito impressionado com as ideias, verdadeiramente novas e inteiramente diferentes da tradição da interpretação acadêmica de Marx, e fiquei intrigado com o estilo, que me lembrava os panfletos dos grupos minúsculos da extrema esquerda nas universidades alemãs da década de 1970. Mas a originalidade das ideias prevaleceu.

Quando liguei o meu microfone na noite de 15 de abril de 1993 no Instituto Goethe de São Paulo, tive a impressão de ver e ouvir um pensador alemão do séc. XIX. Kurz tinha o esquema da sua palestra na memória e falava ex tempore. Era um orador extremamente articulado. Ao mesmo tempo parecia estar improvisando. Essa tensão entre o esquema previamente definido e a improvisação resultava em uma vivacidade extraordinária, muito distinta dojeito de falar da maioria dos professores universitários da atualidade. Digo aqui “jeito de falar”, quando deveria, para ser mais preciso, mencionar o estilo muitas vezes pedante e burocrático dos professores universitários. A interpretação simultânea de Robert Kurz era difícil, demandava uma concentração imensa, mas era também perfeitamente factível. Não estava no horizonte dos intérpretes convencionais, dos egressos das faculdades de interpretação, que formam intérpretes para o “feijão com arroz” da política convencional, das ciências naturais aplicadas, como as ciências biomédicas e os muitos ramos da engenharia. Ser intérprete de Robert Kurz exigia a familiaridade não apenas com a tradição marxista, mas com a tradição filosófica europeia. Um traço distintivo da retórica de Robert Kurz, que cedo aprendi a identificar como sintoma de classicidade, era a sua capacidade de levantar vôo para altitudes estratosféricas do pensamento abstrato e retornar em vôo rasante para o plano da concretude, exemplificando em imagens sugestivas e poderosas as ideias antes enunciadas em conceitos. Hegel e Marx dominam essa arte.

Desde meados da década de 90 vi com muita satisfação como Robert Kurz estava escrevendo cada vez melhor, com mais elegância e urbanidade do que no primeiro livro, que lhe rendera fama na Europa e no Brasil. Foi um grande escritor e um grande orador.

Para terminar esse depoimento muito breve, uma anedota da primeira maratona com Robert Kurz em Fortaleza, onde ele proferiu várias palestras em sessões noturnas no Centro de Convenções. Em uma noite, Robert Kurz exemplificou as transformações do trabalho na sociedade moderna. Disse (cito aqui de memória): “Qualquer aristocrata medieval ou mesmo do séc. XVIII sorriria com desprezo diante de um executivo moderno, obrigado a trabalhar duro e sem parar para não ser demitido pelos acionistas da empresa.” À diferença de muitos autores acadêmicos, Robert Kurz apreciava a literatura clássica, mesclando o alemão clássico com expressões idiomáticas amiúde saborosas. Naquela noite, ele disse que o executivo moderno era obrigado a “sich ins Zeug legen”, expressão que traduzi nesse depoimento por “trabalhar duro e sem parar”. No calor da hora, usei uma expressão idiomática que tem esse mesmo sentido na minha terra, no Rio Grande do Sul. Disse: “O executivo moderno precisa dar no couro”. Os mais de mil ouvintes no Centro de Convenções, que me escutavam, prorromperam em gargalhadas. Muitos se viraram para a cabine, na qual eu trabalhava, alguns com gestos explícitos, que me revelaram imediatamente o sentido de “dar no couro” no Nordeste. Compreendi na hora o que acontecera. Mas Robert Kurz repetiu duas vezes a sua expressão, para dar mais ênfase à ideia. Decidi então divertir-me e repeti nas duas vezes “dar no couro”. Os ouvintes riram sem parar durante vários minutos. Robert Kurz não entendeu a reação deles. Transcorridos alguns minutos, estava positivamente consternado, colocou os fones de ouvido e perguntou-me por que o público estava rindo tanto. Expliquei-lhe que usara uma expressão do português do Brasil Meridional, que tinha um sentido bem diverso no Nordeste. Nesse instante, as gargalhadas da plateia estavam refluindo. Quando ele compreendeu, começou a rir, provocando novas explosões de riso na plateia. O episódio rendeu-me uma notoriedade inesperada em Fortaleza. Ouvi comentários na mesma noite, quando saí da cabine, na manhã seguinte, quando caminhei à beira do mar, nos dias seguintes e mesmo no aeroporto, ao embarcar no vôo de retorno.

Volta e meia pergunto-me sobre o que Robert Kurz diria sobre o mundo atual. Como ele reagiria ao Brasil de 2020? Tenho algumas conjeturas. Mas tenho também uma certeza: se ele estivesse vivo e voltasse a Fortaleza, o seu intérprete seria mais cuidadoso na escolha das palavras e expressões em português.


* Nascido em 1950 em Porto Alegre. Intérprete de conferências desde 1979.

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